Desmaio (Síncope): diagnóstico, avaliação e atendimento pelo SUS

Entenda como o SUS avalia episódios de síncope (desmaio), quais exames podem ser solicitados, causas mais comuns e quando procurar atendimento na rede pública de saúde.

1/5/20268 min read

Desmaio (Síncope): O Que Causa e Como o SUS Investiga

O desmaio, ou síncope, como é chamado tecnicamente, é uma perda súbita e temporária de consciência, geralmente acompanhada de uma queda. Embora assustador, na maioria das vezes o desmaio não é um sinal de uma doença grave. No entanto, ele sempre deve ser investigado, pois pode, em alguns casos, ser um alerta para condições de saúde que precisam de atenção.

Entender as causas mais comuns e como o Sistema Único de Saúde (SUS) aborda a investigação do desmaio pode trazer tranquilidade e orientação sobre como agir.

O Que Acontece no Corpo Durante um Desmaio?

O desmaio ocorre quando o fluxo de sangue para o cérebro é temporariamente reduzido. Sem oxigênio e nutrientes suficientes, o cérebro “desliga” por um breve momento, levando à perda de consciência e do tônus muscular. A recuperação geralmente é rápida e completa assim que a pessoa se deita ou é colocada na posição horizontal, o que facilita o retorno do sangue ao cérebro.

Principais Causas de Desmaio

As causas da síncope são variadas, mas a grande maioria está relacionada a um tipo específico, conhecido como síncope reflexa ou neuromediada.

1. Síncope Vasovagal (a mais comum)

É o tipo de desmaio mais frequente e não está associado a doenças graves. Ele ocorre devido a uma resposta exagerada do sistema nervoso a um gatilho, que causa uma queda súbita da pressão arterial e da frequência cardíaca. Gatilhos comuns incluem:

  • Emoções fortes: Medo, ansiedade, estresse ou até mesmo uma boa notícia.

  • Dor intensa.

  • Ver sangue ou agulhas.

  • Ficar em pé por muito tempo, especialmente em ambientes quentes e cheios.

  • Esforço para tossir, evacuar ou urinar.

Antes do desmaio vasovagal, é comum sentir alguns sintomas de alerta (pródromos), como tontura, visão turva ou em túnel, suor frio, palidez, náuseas e zumbido no ouvido. Reconhecer esses sinais é importante para tentar evitar a queda.

2. Hipotensão Ortostática

Ocorre quando a pressão arterial cai bruscamente ao se levantar. É mais comum em idosos, pessoas desidratadas ou que usam certos medicamentos para pressão alta ou depressão.

3. Causas Cardíacas (as mais preocupantes)

Embora menos comuns, as causas cardíacas são as mais graves e precisam ser descartadas. O desmaio pode ser o primeiro sinal de:

  • Arritmias: Batimentos cardíacos muito rápidos, muito lentos ou irregulares.

  • Doenças estruturais do coração: Como problemas nas válvulas cardíacas (estenose aórtica) ou doenças do músculo cardíaco (cardiomiopatia).

O desmaio de origem cardíaca muitas vezes ocorre sem aviso, durante o esforço físico, ou é acompanhado de dor no peito ou palpitações.

A Investigação do Desmaio no SUS

Se você teve um episódio de desmaio, a investigação deve começar na Unidade Básica de Saúde (UBS), com o médico da família.

A Consulta Médica

A parte mais importante da avaliação é a história clínica detalhada. O médico fará perguntas cruciais para diferenciar os tipos de síncope:

  • O que você estava fazendo quando desmaiou? (Estava em pé há muito tempo? Levantou-se rápido? Estava se exercitando?)

  • Você sentiu algo antes de desmaiar? (Tontura, suor, palpitações?)

  • Quanto tempo durou o desmaio?

  • Como você se sentiu ao acordar? (Confuso? Cansado?)

  • Alguém viu o desmaio? (Houve movimentos anormais, como tremores, que poderiam sugerir uma convulsão?)

  • Você tem alguma doença? (Diabetes, pressão alta, problemas cardíacos?)

  • Você usa algum medicamento?

Exames Iniciais

Com base na suspeita clínica, o médico pode solicitar:

  • Eletrocardiograma (ECG): Um exame simples e rápido, disponível na maioria das UBS, que avalia a atividade elétrica do coração e pode detectar arritmias ou sinais de outras doenças cardíacas.

  • Exames de sangue: Para verificar anemia, diabetes e outras alterações.

Quando Procurar a Emergência (UPA ou SAMU 192)?

Nem todo desmaio exige uma ida imediata à emergência. No entanto, procure atendimento de urgência se:

  • O desmaio ocorreu durante o exercício físico.

  • Houve dor no peito, falta de ar ou palpitações antes ou depois do desmaio.

  • A recuperação da consciência foi lenta ou houve confusão mental após o episódio.

  • Houve movimentos anormais (sugestivos de convulsão) durante o desmaio.

  • A pessoa tem histórico de doença cardíaca na família ou já tem um diagnóstico de problema no coração.

  • O desmaio resultou em um traumatismo craniano ou outro ferimento grave.

Síncope ou Convulsão? Entendendo a Diferença

Uma das maiores dúvidas durante um episódio de perda de consciência é se o evento foi um desmaio (síncope) ou uma crise convulsiva. Embora ambos possam levar a uma queda, as características são distintas. A diferenciação é crucial, pois o tratamento e a investigação são completamente diferentes.

Gatilho

  • Síncope (Desmaio): Frequentemente presente (dor, emoção, ficar em pé).

  • Crise Convulsiva: Geralmente ausente, pode ocorrer a qualquer momento.

Sintomas Prévios

  • Síncope (Desmaio): Comuns: tontura, visão turva, suor, palidez.

  • Crise Convulsiva: Menos comuns, pode haver uma "aura" (sensação estranha).

Perda de Consciência

  • Síncope (Desmaio): Rápida e de curta duração (segundos a 1-2 minutos).

  • Crise Convulsiva: Pode ser mais prolongada.

Movimentos

  • Síncope (Desmaio): Geralmente o corpo fica flácido. Podem ocorrer alguns abalos musculares breves, mas não são rítmicos.

  • Crise Convulsiva: Movimentos de abalos rítmicos e intensos (tônico-clônicos), rigidez corporal.

Cor da Pele

  • Síncope (Desmaio): Palidez.

  • Crise Convulsiva: Pode haver cianose (pele azulada) devido à dificuldade respiratória.

Mordida da Língua

  • Síncope (Desmaio): Raro, e se ocorre, geralmente é na ponta.

  • Crise Convulsiva: Comum, e geralmente na lateral da língua.

Perda de Urina

  • Síncope (Desmaio): Pode ocorrer, mas é menos comum.

  • Crise Convulsiva: Frequente.

Recuperação

  • Síncope (Desmaio): Rápida, a pessoa acorda orientada, embora possa se sentir fraca.

  • Crise Convulsiva: Lenta, com um período de confusão mental, sonolência e dor de cabeça (período pós-ictal).

Ação no SUS: Se a descrição do evento for mais compatível com uma crise convulsiva, o médico da família fará o encaminhamento prioritário para o neurologista. A investigação incluirá exames como o eletroencefalograma (EEG), para avaliar a atividade elétrica cerebral, e, se necessário, exames de imagem como a tomografia ou ressonância magnética do crânio.

O Desmaio em Idosos: Uma Atenção Redobrada

O desmaio em pessoas idosas requer uma investigação ainda mais cuidadosa. Nessa faixa etária, as causas cardíacas e a hipotensão ortostática são muito mais prevalentes. Além disso, as consequências de uma queda podem ser muito mais graves, resultando em fraturas (especialmente de quadril) e traumatismos cranianos.

Fatores de Risco em Idosos:

  • Polifarmácia: O uso de múltiplos medicamentos é um fator de risco significativo para hipotensão ortostática e desmaios.

  • Menor Sensibilidade dos Barorreceptores: Os sensores de pressão do corpo se tornam menos eficientes com a idade, dificultando o ajuste rápido da pressão ao se levantar.

  • Doenças Cardíacas Subjacentes: A prevalência de arritmias e outras doenças cardíacas aumenta com a idade.

  • Desidratação: Idosos tendem a sentir menos sede e a beber menos líquidos, o que pode levar à hipotensão.

Abordagem no SUS: O médico da família, ao avaliar um idoso com síncope, fará uma revisão completa de todos os medicamentos em uso, na tentativa de identificar e substituir aqueles que possam estar causando o problema. A investigação para causas cardíacas será sempre uma prioridade. Além disso, a equipe de enfermagem e o fisioterapeuta podem orientar sobre medidas para prevenir a hipotensão ortostática, como levantar-se lentamente, usar meias de compressão e manter uma boa hidratação.

A Importância do Histórico Familiar na Investigação da Síncope

Durante a consulta no SUS, uma pergunta que o médico certamente fará é sobre o histórico de saúde da sua família. Essa informação é de extrema importância na investigação da síncope, pois algumas das causas mais graves de desmaio têm um componente genético. Saber se parentes próximos (pais, irmãos) tiveram problemas cardíacos ou desmaios pode direcionar a investigação.

Condições Hereditárias a Serem Consideradas:

  • Cardiomiopatias: Doenças do músculo cardíaco, como a cardiomiopatia hipertrófica, que podem causar arritmias e morte súbita, são frequentemente hereditárias.

  • Canalopatias: São doenças elétricas raras do coração, como a Síndrome do QT Longo ou a Síndrome de Brugada, que podem causar arritmias fatais. O desmaio pode ser o único sintoma de alerta.

  • Histórico de Morte Súbita na Família: A ocorrência de morte súbita em um parente jovem (geralmente com menos de 40 anos) é um grande sinal de alerta e exige uma investigação cardíaca aprofundada em todos os familiares de primeiro grau.

Se houver um histórico familiar positivo para qualquer uma dessas condições, o médico da UBS fará o encaminhamento para o cardiologista com urgência. A investigação no SUS incluirá não apenas o paciente que desmaiou, mas muitas vezes se estenderá aos seus familiares diretos, como uma medida de prevenção e diagnóstico precoce.

Desmaio em Crianças e Adolescentes

O desmaio também pode ocorrer em crianças e adolescentes, e, assim como nos adultos, a síncope vasovagal é a causa mais comum. A adolescência, com suas rápidas mudanças hormonais e de crescimento, é um período particularmente propenso a esses episódios. Gatilhos como ficar muito tempo em pé em formaturas, shows, ou em jejum prolongado são muito comuns.

No entanto, o desmaio em crianças nunca deve ser ignorado. A avaliação pelo pediatra na UBS é fundamental para descartar causas mais raras, mas potencialmente graves.

Sinais de Alerta na População Pediátrica:

  • Desmaio durante o esporte ou atividade física: Este é o sinal de alerta mais importante e exige investigação cardíaca imediata.

  • Histórico familiar de morte súbita ou doenças cardíacas.

  • Desmaio sem os sintomas de alerta (pródromos).

  • Palpitações ou dor no peito associadas ao episódio.

A Investigação no SUS: O pediatra fará uma história clínica detalhada e um exame físico completo. O eletrocardiograma (ECG) é um exame essencial e de rotina na investigação. Se houver qualquer sinal de alerta, a criança será encaminhada para o cardiopediatra, o especialista do SUS em doenças do coração em crianças. Ele poderá solicitar exames como o ecocardiograma e o Holter para garantir que não há nenhuma doença cardíaca subjacente.

Na grande maioria dos casos, o diagnóstico será de síncope vasovagal. Nesses casos, a orientação para os pais e para a criança sobre como reconhecer os gatilhos, manter uma boa hidratação e realizar as manobras de contrapressão é a base do tratamento. Saber que a condição é benigna traz grande alívio e segurança para a família.

Prevenção e Cuidados

Para a síncope vasovagal, a mais comum, a prevenção é a chave. Reconhecer os sintomas de alerta (pródromos) é o primeiro passo. Ao sentir tontura, visão turva ou náuseas, a pessoa deve:

  1. Deitar-se imediatamente, com as pernas elevadas, se possível.

  2. Se não for possível deitar, sentar-se e colocar a cabeça entre os joelhos.

  3. Realizar manobras de contrapressão, como cruzar as pernas e contrair os músculos abdominais e dos braços. Isso ajuda a aumentar a pressão arterial.

Manter-se bem hidratado, evitar ficar em pé por longos períodos em locais quentes e evitar os gatilhos conhecidos também são medidas importantes. A investigação correta do desmaio no SUS é fundamental para garantir a segurança e a qualidade de vida, oferecendo desde orientações simples até tratamentos complexos, sempre com o objetivo de proteger a saúde do paciente.