Vertigem e tontura: diagnóstico, tratamento e acompanhamento pelo SUS
Entenda como o SUS avalia casos de vertigem e tontura, quais exames podem ser solicitados, opções de tratamento e como funciona o acompanhamento na rede pública de saúde.
1/5/20267 min read


Vertigem e Tontura: Como o SUS Investiga as Causas e Orienta o Tratamento
A sensação de que o mundo está girando ou de que você está prestes a desmaiar é assustadora e incapacitante. Vertigem e tontura são sintomas comuns que levam muitas pessoas a procurar ajuda médica, mas a variedade de causas pode tornar o diagnóstico um desafio. O Sistema Único de Saúde (SUS) está preparado para investigar esses sintomas de forma criteriosa, começando pela Atenção Primária e, quando necessário, encaminhando para especialistas.
Entender a diferença entre os termos e como o SUS aborda o problema é o primeiro passo para encontrar o alívio. Este guia explica o fluxo de atendimento e as principais causas investigadas.
Tontura ou Vertigem? Entendendo a Diferença
Embora usados como sinônimos, tontura e vertigem descrevem sensações diferentes, e essa distinção é crucial para o diagnóstico.
Tontura: É um termo mais amplo que pode incluir sensações de "cabeça leve", instabilidade, fraqueza ou a impressão de estar prestes a desmaiar (pré-síncope).
Vertigem: É um tipo específico de tontura, caracterizado por uma sensação rotatória. O paciente sente que ele ou o ambiente ao seu redor está girando. A vertigem quase sempre aponta para um problema no sistema vestibular, localizado no ouvido interno, ou nas vias neurológicas associadas.
Vertigem
Descrição Comum do Paciente: "O quarto está girando", "Sinto que estou em um carrossel"
Possíveis Causas Principais: Problemas no ouvido interno (VPPB, Doença de Ménière, Neurite Vestibular)
Pré-síncope
Descrição Comum do Paciente: "Sinto que vou desmaiar", "Minha vista escureceu"
Possíveis Causas Principais: Queda de pressão, problemas cardíacos, hipoglicemia
Desequilíbrio
Descrição Comum do Paciente: "Estou instável", "Sinto que vou cair ao andar"
Possíveis Causas Principais: Problemas neurológicos, fraqueza muscular, alterações visuais
Tontura Mal Definida
Descrição Comum do Paciente: "Estou com a cabeça oca", "Me sinto aéreo"
Possíveis Causas Principais: Ansiedade, depressão, efeitos de medicamentos
O Ponto de Partida: Investigação na Unidade Básica de Saúde (UBS)
Ao sentir tontura ou vertigem, o primeiro passo é procurar a UBS (posto de saúde). O médico da família ou clínico geral fará uma anamnese detalhada, que é a parte mais importante da investigação.
Perguntas-Chave que o Médico Fará:
Como é a sua tontura? (É rotatória? Sensação de desmaio?)
Quanto tempo duram as crises? (Segundos, minutos, horas ou dias?)
O que desencadeia a tontura? (Mudar a posição da cabeça? Levantar-se rápido? Estresse?)
Você tem outros sintomas? (Perda de audição, zumbido, dor de cabeça, náuseas, vômitos, sintomas neurológicos como fraqueza ou formigamento?)
Você usa algum medicamento? (Muitos remédios, incluindo para pressão alta, podem causar tontura).
Exame Físico e Manobras Diagnósticas
Durante a consulta, o médico realizará um exame físico completo, incluindo a medição da pressão arterial (deitado e em pé, para verificar hipotensão postural) e um exame neurológico básico. Para investigar a vertigem, manobras específicas podem ser realizadas no próprio consultório, como a Manobra de Dix-Hallpike, que ajuda a diagnosticar a causa mais comum de vertigem: a Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB).
Principais Causas de Vertigem e Como o SUS Trata
1. Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)
A VPPB é a causa mais comum de vertigem. Ela ocorre quando pequenos cristais de carbonato de cálcio (otólitos) se deslocam para uma parte do ouvido interno onde não deveriam estar. Isso causa crises de vertigem intensas e de curta duração (geralmente menos de um minuto), desencadeadas por movimentos da cabeça, como deitar, levantar ou virar na cama.
Diagnóstico e Tratamento no SUS: O diagnóstico é feito pela Manobra de Dix-Hallpike. O tratamento é imediato e realizado no próprio consultório através de manobras de reposicionamento canalítico, como a Manobra de Epley. O médico ou fisioterapeuta treinado realiza uma série de movimentos com a cabeça do paciente para guiar os cristais de volta ao seu lugar de origem. A melhora costuma ser imediata.
2. Doença de Ménière
É uma doença crônica do ouvido interno causada pelo aumento da pressão do líquido (endolinfa) no labirinto. Caracteriza-se pela tríade de sintomas:
Crises de vertigem intensas e duradouras (20 minutos a várias horas).
Perda de audição flutuante (que vai e volta).
Zumbido no ouvido e sensação de ouvido "cheio".
Diagnóstico e Tratamento no SUS: O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente. O médico da UBS pode iniciar o tratamento e, se necessário, encaminhar para um otorrinolaringologista. O tratamento envolve mudanças na dieta (redução de sal, cafeína e álcool), uso de medicamentos diuréticos para diminuir a pressão do líquido no ouvido e remédios para controlar as náuseas e a vertigem durante as crises.
3. Neurite Vestibular
É uma inflamação do nervo vestibular, geralmente causada por uma infecção viral. Causa uma crise de vertigem súbita, intensa e contínua, que pode durar dias, acompanhada de náuseas e vômitos intensos, mas sem perda de audição.
Diagnóstico e Tratamento no SUS: O tratamento inicial, muitas vezes realizado em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), foca no alívio dos sintomas com medicamentos para vertigem e vômitos. O médico pode prescrever corticoides para reduzir a inflamação do nervo. Após a fase aguda, o paciente é encaminhado para a reabilitação vestibular, um tipo de fisioterapia que ajuda o cérebro a se adaptar e compensar a disfunção do labirinto, acelerando a recuperação do equilíbrio.
A Tontura que Não Passa: Tontura Postural Perceptual Persistente (TPPP)
E quando a crise de vertigem passa, mas a sensação de instabilidade e “cabeça oca” permanece por semanas ou meses? Essa condição é conhecida como Tontura Postural Perceptual Persistente (TPPP), anteriormente chamada de tontura fóbica. É uma das causas mais comuns de tontura crônica no mundo.
A TPPP geralmente é desencadeada por um evento que causou uma vertigem aguda (como uma crise de VPPB ou neurite vestibular) ou por um período de estresse intenso ou ansiedade. Mesmo após a causa inicial ser resolvida, o cérebro continua em um estado de “alerta máximo”, processando de forma exagerada as informações de movimento. Isso leva a uma sensação constante de instabilidade, que piora em ambientes com muitos estímulos visuais (como supermercados), ao realizar movimentos complexos ou ao ficar em pé parado.
Diagnóstico e Tratamento no SUS: O diagnóstico da TPPP é clínico e requer a exclusão de outras causas. O tratamento é multidisciplinar e o SUS pode oferecer as ferramentas necessárias:
Reabilitação Vestibular: É o tratamento principal. O fisioterapeuta ajuda o paciente a “recalibrar” o cérebro através de exercícios de habituação, dessensibilizando-o aos movimentos e estímulos que causam a tontura.
Apoio Psicológico: Como a ansiedade é um fator central na TPPP, a terapia com um psicólogo (disponível via NASF) é fundamental para quebrar o ciclo vicioso onde a tontura gera ansiedade, e a ansiedade piora a tontura.
Medicamentos: Antidepressivos (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) podem ser usados em doses baixas para ajudar a modular os circuitos cerebrais envolvidos na ansiedade e no processamento do equilíbrio.
A Conexão Mente-Corpo: Ansiedade, Depressão e Tontura
É impossível falar de tontura crônica sem abordar a saúde mental. A ansiedade e a depressão podem ser tanto a causa quanto a consequência da tontura.
Uma crise de pânico, por exemplo, pode causar uma sensação intensa de tontura e pré-síncope devido à hiperventilação. Por outro lado, conviver com a imprevisibilidade de crises de vertigem pode gerar um quadro de ansiedade e medo de sair de casa, conhecido como agorafobia.
O SUS adota uma abordagem de cuidado integral, reconhecendo essa conexão. O médico da UBS está treinado para investigar fatores psicossociais e, se identificar a necessidade, pode encaminhar o paciente para a equipe de saúde mental do NASF ou para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Tratar a ansiedade ou a depressão é, em muitos casos, a chave para resolver a tontura crônica.
A Dor de Cabeça que Causa Vertigem: Migrânea Vestibular
Você sabia que a enxaqueca (migrânea) é uma das causas mais comuns de vertigem? A Migrânea Vestibular é uma condição em que pacientes com histórico de enxaqueca apresentam crises de vertigem, mesmo sem dor de cabeça no momento. Os sintomas podem ser muito variados, incluindo vertigem espontânea, tontura posicional, instabilidade e sensibilidade a movimentos.
Diagnóstico e Tratamento no SUS: O diagnóstico pode ser desafiador e muitas vezes requer o acompanhamento conjunto do clínico, otorrinolaringologista e neurologista. O tratamento é focado na profilaxia da enxaqueca, ou seja, em prevenir as crises. Isso envolve:
Mudanças no Estilo de Vida: Identificar e evitar gatilhos da enxaqueca, como certos alimentos, estresse, e irregularidade no sono.
Medicamentos Profiláticos: O médico pode prescrever medicamentos usados para prevenir a enxaqueca, que também se mostram eficazes para controlar a vertigem.
Reabilitação Vestibular: Também pode ser útil para alguns pacientes, ajudando a lidar com a instabilidade entre as crises.
O diagnóstico diferencial é fundamental. O médico do SUS precisa diferenciar a Migrânea Vestibular de outras condições, como a Doença de Ménière, já que os sintomas podem se sobrepor. A história clínica detalhada do paciente, especialmente o histórico de enxaqueca, é a peça-chave para o diagnóstico correto.
O Papel do Fisioterapeuta na Reabilitação Vestibular
A fisioterapia vestibular é um pilar fundamental no tratamento de muitas formas de tontura e vertigem crônica. Disponível em muitos serviços de reabilitação do SUS, ela consiste em um programa de exercícios personalizados que visam:
Adaptação: Melhorar a capacidade do cérebro de se ajustar aos sinais anormais vindos do ouvido interno.
Habituação: Reduzir a sensibilidade à tontura através da exposição repetida a movimentos que a provocam.
Substituição: Ensinar o corpo a usar outros sentidos (visão, propriocepção) para compensar a perda da função vestibular.
Quando a Tontura é um Sinal de Alerta (Red Flags)
Embora a maioria das tonturas seja benigna, em alguns casos ela pode ser um sinal de uma condição grave, como um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Procure atendimento de emergência (SAMU 192 ou UPA) imediatamente se a tontura vier acompanhada de:
Início súbito e explosivo ("a pior dor de cabeça da vida").
Fraqueza ou formigamento em um lado do corpo.
Dificuldade para falar ou enxergar.
Perda de coordenação ou incapacidade de andar.
Dor no peito ou desmaio.
O SUS está estruturado para investigar a tontura de forma completa e segura. Se você sofre com esse sintoma, não hesite em procurar a Unidade Básica de Saúde. Um diagnóstico correto é o primeiro passo para um tratamento eficaz e para a recuperação da sua qualidade de vida.
Artigos Relacionados
Referências
Saúde para todos
Tudo sobre o Sistema Único de Saúde Brasileiro.
Quem somos
© 2024 Viva o SUS. All rights reserved.
Institucional