Enxaqueca: diagnóstico, tratamento e medicamentos disponíveis pelo SUS
Informações sobre o diagnóstico da enxaqueca, os medicamentos utilizados no tratamento e como funciona o acompanhamento pelo SUS.
1/11/20257 min read


Enxaqueca: Como o SUS Oferece Tratamento Especializado e Alívio para a Dor
A enxaqueca é muito mais do que uma simples dor de cabeça. É uma condição neurológica crônica, complexa e muitas vezes incapacitante, que afeta milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Caracterizada por uma dor de cabeça pulsátil e intensa, geralmente em um lado da cabeça, a enxaqueca pode vir acompanhada de náuseas, vômitos e extrema sensibilidade à luz e ao som. Para quem sofre com crises recorrentes, a qualidade de vida pode ser severamente comprometida, afetando o trabalho, os estudos e as relações sociais.
Felizmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece uma linha de cuidado completa para o diagnóstico e tratamento da enxaqueca, desde a Atenção Primária até os centros de referência em neurologia. Este guia irá detalhar o caminho que o paciente pode percorrer para encontrar alívio e controle para a sua condição.
Entendendo a Enxaqueca: Tipos e Sintomas
É fundamental diferenciar a enxaqueca de outras dores de cabeça (cefaleias). Os sintomas mais comuns da enxaqueca incluem:
Dor de cabeça unilateral e pulsátil: A dor latejante que geralmente afeta um lado da cabeça é um dos sinais mais clássicos.
Intensidade moderada a severa: A dor é forte o suficiente para atrapalhar ou impedir as atividades diárias.
Fotofobia e Fonofobia: Sensibilidade extrema à luz e ao som, fazendo com que a pessoa procure ambientes escuros e silenciosos.
Náuseas e Vômitos: Sintomas gastrointestinais são muito comuns durante as crises.
Aura: Cerca de 25% das pessoas com enxaqueca experimentam a chamada "aura", que são sintomas neurológicos transitórios que precedem a dor. Os mais comuns são visuais, como pontos brilhantes, flashes de luz ou linhas em ziguezague. A aura pode também se manifestar como formigamento em um lado do corpo ou dificuldade para falar.
A enxaqueca pode ser classificada como episódica (quando as crises ocorrem em menos de 15 dias por mês) ou crônica (quando ocorrem em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses).
O Fluxo de Atendimento da Enxaqueca no SUS
O tratamento da enxaqueca no SUS é estruturado em diferentes níveis de atenção, garantindo que o paciente receba o cuidado adequado para a sua necessidade.
1. A Porta de Entrada: Unidade Básica de Saúde (UBS)
O primeiro passo para quem sofre de dores de cabeça recorrentes é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS), o postinho de saúde do seu bairro. O médico da família ou o clínico geral fará a primeira avaliação.
Nesta consulta, o médico irá:
Coletar o histórico detalhado: Frequência, intensidade, duração e características da dor.
Realizar um exame físico e neurológico básico.
Descartar "sinais de alarme" (red flags): Sintomas que podem indicar uma causa mais grave para a dor de cabeça, como um tumor ou um aneurisma.
Fornecer as primeiras orientações: Incluindo o uso de analgésicos para as crises agudas e a importância de um "diário da dor de cabeça" para identificar gatilhos.
Para muitos casos de enxaqueca episódica, o tratamento pode ser iniciado e acompanhado na própria UBS.
2. O Encaminhamento para o Neurologista
Se o caso for mais complexo, o médico da UBS solicitará o encaminhamento para um neurologista. Isso geralmente acontece quando:
A enxaqueca é crônica ou de difícil controle.
Há dúvidas no diagnóstico.
O tratamento inicial não foi eficaz.
Existem sinais de alarme que necessitam de investigação especializada.
O paciente será inserido no sistema de regulação e aguardará a consulta com o especialista em um ambulatório ou hospital de referência.
3. O Tratamento Especializado
Com o neurologista, o tratamento se torna mais específico e pode incluir duas abordagens principais:
Tratamento Agudo: Focado em aliviar a dor e os sintomas da crise já instalada. Além dos analgésicos comuns, o SUS disponibiliza medicamentos mais específicos, como os triptanos (a exemplo da sumatriptana), que são muito eficazes para interromper a crise de enxaqueca.
Tratamento Profilático (Preventivo): Indicado para pacientes com crises muito frequentes ou incapacitantes. O objetivo é reduzir a frequência e a intensidade das dores. O SUS oferece diversas classes de medicamentos para a profilaxia, como antidepressivos (amitriptilina), anticonvulsivantes (topiramato, ácido valproico) e betabloqueadores (propranolol).
Recentemente, o SUS incorporou também o uso da Toxina Botulínica (Botox®) para o tratamento da enxaqueca crônica refratária, ou seja, para pacientes que não responderam a pelo menos três outros tratamentos profiláticos. A aplicação é feita em centros de referência e segue um protocolo rigoroso.
A Importância do Diário da Dor de Cabeça
Uma das ferramentas mais importantes no manejo da enxaqueca é o diário da dor de cabeça. Anotar detalhes sobre cada crise ajuda tanto o paciente quanto o médico a entenderem melhor a doença. O diário deve incluir:
Data e hora de início da dor.
Duração da crise.
Intensidade da dor (de 0 a 10).
Sintomas associados (náusea, vômito, sensibilidade à luz/som).
Possíveis gatilhos (alimentos, estresse, sono inadequado, ciclo menstrual).
Medicação utilizada e o efeito que ela teve.
Essas informações são valiosas para identificar padrões, evitar gatilhos e ajustar o tratamento preventivo de forma mais eficaz.
Abordagem Multidisciplinar e Práticas Integrativas
O tratamento da enxaqueca vai além dos medicamentos. Uma abordagem multidisciplinar é fundamental para o controle da condição. O SUS, através do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) e dos Centros Especializados em Reabilitação (CER), pode oferecer o suporte de outros profissionais, como:
Psicólogos: Para ajudar a lidar com o estresse, a ansiedade e a depressão, que são gatilhos e consequências comuns da enxaqueca.
Fisioterapeutas: Para tratar dores cervicais associadas e ensinar técnicas de relaxamento.
Nutricionistas: Para orientar sobre uma dieta que evite alimentos conhecidos por desencadear crises em algumas pessoas.
Além disso, o SUS incentiva o uso das Práticas Integrativas e Complementares (PICs), que podem ser grandes aliadas no tratamento. A Acupuntura, por exemplo, é uma das PICs com maior evidência científica de eficácia na prevenção da enxaqueca e está disponível em muitas UBS e serviços especializados.
Enxaqueca e a Saúde da Mulher: Uma Relação Próxima
A enxaqueca afeta três vezes mais mulheres do que homens, e essa diferença está diretamente ligada às flutuações hormonais ao longo da vida da mulher. A enxaqueca menstrual é um exemplo claro dessa relação, com crises que surgem tipicamente no período que antecede ou durante a menstruação, devido à queda nos níveis de estrogênio.
O manejo da enxaqueca na mulher requer uma atenção especial:
Anticoncepcionais: O uso de pílulas anticoncepcionais pode tanto melhorar quanto piorar a enxaqueca. Pílulas combinadas (com estrogênio e progesterona) podem ser um gatilho para algumas mulheres, especialmente na semana de pausa. Em outros casos, o uso contínuo, sem pausas, pode ajudar a estabilizar os níveis hormonais e reduzir as crises. A escolha do método contraceptivo deve ser sempre discutida com o ginecologista e o neurologista.
Gestação: Muitas mulheres experimentam uma melhora significativa da enxaqueca durante a gravidez, especialmente no segundo e terceiro trimestres, devido aos níveis elevados e estáveis de estrogênio. No entanto, o tratamento de crises durante a gestação é mais restrito, e o uso de qualquer medicamento deve ser orientado pelo médico.
Menopausa: A transição para a menopausa (perimenopausa) pode ser um período de piora das crises, devido à irregularidade dos ciclos hormonais. Após a menopausa, com a estabilização dos hormônios em níveis mais baixos, muitas mulheres relatam uma melhora do quadro.
O SUS, através dos serviços de Ginecologia e da Saúde da Mulher, trabalha em conjunto com a Neurologia para oferecer um cuidado integrado, considerando essas particularidades e buscando o melhor tratamento para cada fase da vida da mulher.
Sinais de Alarme: Quando a Dor de Cabeça Exige Atenção Imediata
Embora a maioria das dores de cabeça seja benigna, alguns sinais e sintomas, conhecidos como "red flags" (bandeiras vermelhas), indicam a necessidade de procurar um serviço de emergência (UPA ou hospital) imediatamente, pois podem ser sinal de uma condição grave, como um AVC, aneurisma ou meningite.
Fique atento se a sua dor de cabeça:
Começa de forma súbita e explosiva, atingindo a intensidade máxima em menos de um minuto (cefaleia "em trovoada").
É acompanhada de febre, rigidez na nuca e confusão mental.
Vem junto com perda de força em um lado do corpo, dificuldade para falar ou alterações visuais súbitas.
Ocorre após um traumatismo craniano.
Muda de padrão ou piora progressivamente ao longo de dias ou semanas.
É a "pior dor de cabeça da vida" para quem não costuma ter dores intensas.
Nesses casos, não hesite em procurar ajuda médica imediata. O diagnóstico rápido pode salvar vidas.
Cefaleia por Uso Excessivo de Medicamentos (CUEM): Um Círculo Vicioso
Um dos maiores riscos para quem sofre de enxaqueca ou outras dores de cabeça frequentes é desenvolver a Cefaleia por Uso Excessivo de Medicamentos (CUEM). Isso acontece quando o uso de analgésicos para a dor aguda se torna muito frequente, criando um ciclo vicioso: o remédio que antes aliviava a dor passa a ser a causa dela.
Considera-se uso excessivo quando um paciente utiliza:
Analgésicos simples (como paracetamol e dipirona) por 15 ou mais dias por mês.
Triptanos, opioides ou combinações de analgésicos por 10 ou mais dias por mês.
O resultado é uma dor de cabeça quase diária, crônica e que não responde mais aos medicamentos. O tratamento da CUEM é um desafio e envolve a retirada completa (desintoxicação) do medicamento usado em excesso. Esse processo deve ser sempre acompanhado por um médico, pois pode haver uma piora temporária da dor (crise de abstinência) antes da melhora.
O neurologista do SUS irá orientar o paciente sobre como fazer essa retirada de forma segura e, ao mesmo tempo, introduzir ou ajustar um tratamento profilático eficaz para prevenir o retorno das crises e quebrar o ciclo da dor.
Viver com enxaqueca é um desafio, mas é importante saber que existe tratamento e que o SUS oferece um caminho completo para o cuidado. Procurar ajuda médica, ter paciência com o tratamento e adotar um estilo de vida saudável são os passos fundamentais para retomar o controle e ter uma vida com menos dor.
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