Estrabismo: Tipos, Tratamento Clínico, Aplicação de Toxina Botulínica e Fluxo para a Cirurgia de Correção pelo SUS
Saiba como o SUS trata o Estrabismo, a importância do diagnóstico precoce para evitar a ambliopia, as opções de tratamento não cirúrgico e o passo a passo para acessar a cirurgia de correção, um procedimento de alta complexidade coberto integralmente pelo sistema.
12/4/20256 min read


Estrabismo: Acesso à Correção Cirúrgica e Tratamento Completo pelo Sistema Único de Saúde (SUS)
O estrabismo, popularmente conhecido como "vesgueira", é uma condição oftalmológica caracterizada pela perda do paralelismo entre os olhos, onde um ou ambos os olhos desviam em relação ao ponto de fixação. Mais do que uma questão estética, o estrabismo é um problema de saúde que pode comprometer o desenvolvimento visual, especialmente em crianças, levando à perda de visão em um dos olhos (ambliopia). No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um protocolo completo para o diagnóstico, tratamento clínico e, quando necessário, a correção cirúrgica do estrabismo, garantindo que o paciente tenha acesso a todos os níveis de cuidado.
Este guia detalhado explora a fundo os tipos de estrabismo, as consequências do não tratamento, as opções terapêuticas disponíveis na rede pública – desde o uso de óculos e oclusão até a aplicação de toxina botulínica – e o fluxo detalhado para a realização da cirurgia de correção pelo SUS, um procedimento de alta complexidade coberto integralmente pelo sistema.
A Complexidade do Estrabismo: Tipos e Classificações
O estrabismo não é uma condição única, mas sim um conjunto de desvios oculares classificados de acordo com a direção do desvio e a forma como ele se manifesta. A compreensão exata do tipo de estrabismo é crucial para definir a estratégia de tratamento mais eficaz.
Classificação pela Direção do Desvio:
Esotropia (Convergente): É o tipo mais comum em crianças. Ocorre quando um ou ambos os olhos desviam para dentro, em direção ao nariz.
Esotropia Acomodativa: Causada por um esforço excessivo para focar (hipermetropia não corrigida). Frequentemente tratada apenas com o uso de óculos.
Esotropia Congênita: Presente desde o nascimento ou primeiros meses de vida, exigindo intervenção precoce.
Exotropia (Divergente): Ocorre quando um ou ambos os olhos desviam para fora, em direção à orelha. Pode ser intermitente (manifesta-se apenas em momentos de cansaço ou distração) ou constante.
Hipertropia e Hipotropia (Vertical): Ocorre quando o olho desvia para cima (hipertropia) ou para baixo (hipotropia). São desvios menos frequentes e, muitas vezes, associados a problemas nos músculos oblíquos.
Classificação pela Manifestação:
Estrabismo Constante: O desvio está presente o tempo todo.
Estrabismo Intermitente: O desvio aparece e desaparece, manifestando-se em momentos específicos (cansaço, febre, fixação em objetos próximos ou distantes).
Estrabismo Latente (Foria): O desvio só é percebido quando a fusão binocular é interrompida (por exemplo, ao cobrir um olho). Não exige tratamento cirúrgico.
As Consequências do Estrabismo Não Tratado: Ambliopia e Diplopia
O principal risco do estrabismo, especialmente na infância, é o desenvolvimento da Ambliopia, ou "olho preguiçoso". O cérebro da criança, para evitar a confusão visual causada pelo desalinhamento, suprime a imagem do olho desviado. Se essa supressão persistir durante o período crítico de desenvolvimento visual (até os 7 ou 8 anos), a visão no olho desviado não se desenvolve adequadamente, podendo levar a uma perda visual permanente.
Em adultos, o estrabismo de início recente pode causar Diplopia (visão dupla), pois o cérebro já está acostumado a receber imagens de ambos os olhos e não consegue mais suprimi-las. O tratamento, nesses casos, visa restaurar o alinhamento para eliminar a visão dupla.
O Tratamento Clínico e Não Cirúrgico pelo SUS
A abordagem terapêutica do estrabismo no SUS é sempre iniciada com métodos clínicos, que visam corrigir a causa do desvio ou estimular o desenvolvimento visual.
1. Correção Óptica (Óculos)
Para a Esotropia Acomodativa, o uso de óculos com a correção total da hipermetropia é o tratamento de escolha. O esforço para focar é eliminado, e o desvio ocular desaparece. O SUS garante o acesso à consulta oftalmológica para a prescrição e, em muitos programas municipais e estaduais, a doação das lentes e armações.
2. Oclusão (Tampão)
O tratamento da Ambliopia é feito através da oclusão (uso de tampão) no olho com melhor visão. Isso força o cérebro a utilizar e desenvolver a visão do olho amblíope (o olho desviado). Este tratamento é fundamental e deve ser iniciado o mais cedo possível. O SUS fornece os materiais de oclusão e o acompanhamento oftalmológico para monitorar a evolução da visão.
3. Toxina Botulínica (Botox)
Em alguns casos específicos de estrabismo, como desvios de pequeno ângulo, estrabismos paralíticos ou para ajustes pós-cirúrgicos, a aplicação de Toxina Botulínica (Botox) pode ser utilizada. A toxina é injetada em um dos músculos extraoculares para enfraquecê-lo temporariamente, permitindo que o músculo oposto se fortaleça e realinhe o olho. Este procedimento é coberto pelo SUS em centros de referência.
O Fluxo de Acesso à Cirurgia de Estrabismo pelo SUS
A cirurgia é indicada quando o tratamento clínico não é suficiente para corrigir o desvio ou quando o estrabismo é de natureza congênita ou paralítica. O SUS cobre integralmente a cirurgia de correção de estrabismo, que é classificada como um procedimento de média/alta complexidade.
1. A Porta de Entrada: Atenção Primária
O primeiro passo é sempre a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Unidade de Saúde da Família (USF). O médico da família ou pediatra fará a suspeita diagnóstica e o encaminhamento para o especialista.
2. Atenção Especializada (Oftalmologista)
O paciente é encaminhado para o Oftalmologista via SISREG (Sistema Nacional de Regulação). O especialista em estrabismo (Estrabólogo) fará a avaliação completa, que inclui:
Exames de Acuidade Visual: Para medir a visão de cada olho.
Teste de Motilidade Ocular: Para avaliar a função dos 6 músculos que controlam o movimento de cada olho.
Teste de Visão Binocular: Para verificar a capacidade do paciente de usar os dois olhos juntos.
Somente após a falha do tratamento clínico e a confirmação da necessidade cirúrgica, o oftalmologista preenche o laudo de indicação cirúrgica.
3. A Regulação e a Cirurgia
O laudo é inserido no SISREG, e o paciente entra na fila de espera para a cirurgia em um hospital ou centro de referência credenciado pelo SUS.
A Tabela de Procedimentos do SUS prevê a cobertura total do procedimento, que é codificado de acordo com a complexidade:
04.05.02.002-3: Correção Cirúrgica do Estrabismo (Até 2 Músculos).
04.05.02.001-5: Correção Cirúrgica de Estrabismo (Acima de 2 Músculos).
O procedimento é realizado sob anestesia geral, especialmente em crianças, e consiste em ajustar a tensão dos músculos extraoculares, fortalecendo ou enfraquecendo-os para realinhar o olho. A cirurgia é feita na superfície do olho, sem penetrar no globo ocular, e não utiliza laser.
O Pós-Operatório e o Acompanhamento Contínuo
O sucesso da cirurgia de estrabismo não se limita ao procedimento em si. O acompanhamento pós-operatório é fundamental e também é coberto pelo SUS.
Cuidados Imediatos:
Dor e Desconforto: É comum sentir dor leve, vermelhidão e inchaço nos primeiros dias. O médico prescreverá analgésicos e colírios anti-inflamatórios e antibióticos, que podem ser fornecidos pela Farmácia Básica.
Acompanhamento: O paciente deve retornar ao oftalmologista nos dias seguintes à cirurgia para avaliação do alinhamento e cicatrização.
Acompanhamento a Longo Prazo:
Ajustes: Em alguns casos, pode ser necessário um pequeno ajuste cirúrgico posterior ou a continuação da terapia visual.
Recorrência: O estrabismo pode recorrer, exigindo acompanhamento oftalmológico por toda a vida, especialmente em crianças.
O SUS garante que o paciente com estrabismo tenha acesso a um tratamento que vai além da estética, focando na recuperação da visão binocular e na prevenção da ambliopia, desde a atenção primária até a cirurgia de alta complexidade. A detecção precoce, o tratamento clínico rigoroso e o acesso à cirurgia no momento certo são a chave para o sucesso do tratamento.
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Referências
Ministério da Saúde. Protocolo de Encaminhamento às Ofertas de Cuidados Integrados em Oftalmologia.
Ministério da Saúde. Portaria nº 288, de 19 de maio de 2008 (Serviços de Oftalmologia).
Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP). Orientações sobre Estrabismo.
Protocolo de Acompanhamento de Pacientes com Estrabismo na SES-DF.
Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Orientações sobre Cirurgia de Estrabismo.
Ministério da Saúde. Atenção Primária à Saúde: Saúde da Criança e do Adolescente.
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