Bursite: diagnóstico, tratamento e acompanhamento pelo SUS
Saiba o que é bursite, por que ela acontece e qual o caminho do cuidado no SUS, desde o diagnóstico na UBS até a reabilitação completa.
1/5/20268 min read


Bursites: Tratamento e Prevenção pelo SUS
Aquela dor persistente no ombro ao levantar o braço, no quadril ao deitar de lado ou no joelho ao se ajoelhar pode ser um sinal de bursite. Essa condição, caracterizada pela inflamação de uma pequena bolsa cheia de líquido chamada bursa, é extremamente comum e pode afetar significativamente a qualidade de vida. A boa notícia é que o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um tratamento completo e eficaz, focado no alívio da dor e na recuperação da função.
Este guia completo e humanizado vai explicar o que é a bursite, por que ela acontece, quais são os tipos mais comuns e como é o caminho do cuidado, desde o diagnóstico até a reabilitação, dentro do SUS.
O Que é a Bursa e Por Que Ela Inflama?
Imagine pequenas almofadas de água estrategicamente posicionadas entre os ossos, tendões e músculos. Essas são as bursas. Sua função é reduzir o atrito e permitir que as estruturas deslizem suavemente umas sobre as outras durante o movimento. Temos centenas de bursas espalhadas pelo corpo.
A bursite ocorre quando uma ou mais dessas bolsas inflamam. A inflamação faz com que a bursa inche e produza mais líquido, causando dor e limitando o movimento da articulação próxima.
As principais causas da bursite são:
Movimentos Repetitivos: A causa mais comum. Atividades de trabalho (como pintura, digitação) ou esportes (como natação, tênis) que envolvem o uso repetitivo de uma articulação podem sobrecarregar a bursa.
Pressão Prolongada: Ficar ajoelhado ou apoiar os cotovelos em uma superfície dura por muito tempo pode irritar a bursa local.
Traumas e Lesões: Uma pancada ou queda pode causar uma bursite traumática.
Doenças Sistêmicas: Condições como artrite reumatoide, gota e diabetes podem aumentar o risco de desenvolver bursite.
Infecção: Embora menos comum, uma bursa pode ser infectada por bactérias, causando uma bursite séptica, que é um quadro mais grave.
Os Tipos Mais Comuns de Bursite
A bursite pode ocorrer em qualquer articulação, mas é mais frequente em três locais principais:
Bursite no Ombro (Subacromial): É a mais comum de todas. Causa dor na parte lateral e frontal do ombro, que piora ao levantar o braço acima da altura da cabeça ou ao deitar sobre o ombro afetado. É frequentemente associada à Síndrome do Impacto, onde há um atrito entre os tendões do manguito rotador e o osso (acrômio).
Bursite no Quadril (Trocanteriana): Causa dor na lateral do quadril, que pode irradiar para a coxa. A dor piora ao caminhar, subir escadas e, principalmente, ao deitar de lado sobre o quadril inflamado, o que pode atrapalhar muito o sono.
Bursite no Joelho (Pré-patelar e Anserina):
Pré-patelar: Causa dor e inchaço na frente da patela (o osso do joelho). É comum em pessoas que trabalham muito tempo ajoelhadas, como pedreiros e jardineiros.
Anserina (Pata de Ganso): Causa dor na parte interna do joelho, um pouco abaixo da linha da articulação. É comum em corredores e pessoas com artrose no joelho.
O Tratamento da Bursite no SUS: Um Cuidado em Etapas
O tratamento da bursite no SUS é, na grande maioria dos casos, conservador (não cirúrgico) e começa na Unidade Básica de Saúde (UBS).
1. Diagnóstico e Primeiros Cuidados na UBS
O médico de família ou o enfermeiro irá:
Analisar a sua queixa: Entender como a dor começou, quais movimentos a pioram e qual o impacto dela no seu dia a dia.
Realizar o exame físico: O profissional irá palpar a área dolorida, testar a amplitude de movimento e a força muscular para confirmar a suspeita de bursite.
O diagnóstico da bursite é clínico. Exames de imagem como a ultrassonografia ou a ressonância magnética podem ser solicitados pelo médico da UBS ou por um especialista para confirmar o diagnóstico, avaliar a gravidade da inflamação e descartar outras lesões, como rupturas de tendão.
O tratamento inicial prescrito na UBS geralmente inclui:
Repouso e Modificação da Atividade: Afastar-se da atividade que está causando a dor é o primeiro passo.
Gelo: Aplicar uma bolsa de gelo no local por 15 a 20 minutos, várias vezes ao dia, ajuda a reduzir a inflamação e a dor.
Medicamentos: Se necessário, o médico pode prescrever anti-inflamatórios (como Ibuprofeno ou Naproxeno) e analgésicos (como Dipirona ou Paracetamol), que são disponibilizados gratuitamente na farmácia da UBS.
2. Fisioterapia: O Pilar da Reabilitação
Se a dor persistir, o médico da UBS irá encaminhar o paciente para a fisioterapia, que é a parte mais importante do tratamento da bursite. O fisioterapeuta, que pode atuar na própria UBS, em um centro de reabilitação ou através do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), irá trabalhar para:
Controlar a dor e a inflamação: Utilizando recursos como ultrassom terapêutico, laser e TENS (eletroestimulação).
Melhorar a flexibilidade: Com técnicas de alongamento para os músculos que estão encurtados e sobrecarregando a articulação.
Fortalecer a musculatura: O foco é corrigir os desequilíbrios musculares. Por exemplo, na bursite de ombro, é fundamental fortalecer os músculos do manguito rotador. Na bursite de quadril, o fortalecimento dos músculos glúteos é essencial.
Corrigir o gesto de movimento: O fisioterapeuta irá analisar e corrigir o movimento que está causando a sobrecarga, seja no trabalho ou no esporte.
3. Infiltração e Tratamento Especializado
Em casos de dor muito intensa e que não melhora com o tratamento inicial, o paciente pode ser encaminhado para um ortopedista ou reumatologista da rede de especialidades do SUS. Esse especialista pode indicar uma infiltração.
A infiltração consiste na aplicação de uma injeção com um corticoide (um potente anti-inflamatório) diretamente na bursa inflamada. O procedimento é rápido, feito no próprio consultório, e pode proporcionar um alívio significativo e rápido da dor, permitindo que o paciente progrida melhor na fisioterapia.
Bursite vs. Tendinite: Entendendo a Diferença
Muitas vezes, os termos bursite e tendinite são usados como sinônimos, mas eles se referem a problemas em estruturas diferentes, embora possam ocorrer ao mesmo tempo e ter causas semelhantes.
Estrutura Afetada
Bursite: Inflamação da bursa, a bolsa de líquido que amortece a articulação.
Tendinite: Inflamação do tendão, a estrutura fibrosa que conecta o músculo ao osso.
Tipo de Dor
Bursite: A dor da bursite costuma ser mais aguda e bem localizada sobre a bursa inflamada. Pode ser constante, mesmo em repouso.
Tendinite: A dor da tendinite é tipicamente uma dor que piora com o movimento específico do músculo e tendão afetados e melhora com o repouso.
Localização Comum
Bursite: Ombro (subacromial), quadril (trocanteriana), joelho (pré-patelar), cotovelo (olecraniana).
Tendinite: Ombro (manguito rotador), cotovelo (epicondilite), punho (De Quervain), joelho (patelar), tornozelo (Aquiles).
É comum que a inflamação de um tendão (tendinite) cause uma irritação na bursa vizinha, levando a uma bursite secundária. Por isso, o diagnóstico preciso feito pelo médico ou fisioterapeuta é fundamental, pois o foco do tratamento de fortalecimento e alongamento pode ser diferente para cada condição.
O Papel da Terapia Ocupacional na Adaptação e Prevenção
Quando a bursite é causada por atividades de trabalho ou do dia a dia, o Terapeuta Ocupacional (TO), outro profissional que pode compor a equipe do NASF no SUS, desempenha um papel crucial.
O TO é o especialista em analisar as atividades humanas. Sua intervenção é focada em:
Análise Ergonômica: O terapeuta ocupacional pode avaliar o posto de trabalho do paciente, seja em um escritório ou em uma linha de produção, e sugerir modificações para reduzir a sobrecarga. Isso pode incluir o ajuste da altura da cadeira, o posicionamento do teclado, a organização das ferramentas ou a implementação de pausas ativas.
Adaptação de Atividades: Para tarefas domésticas ou de lazer que causam dor, o TO ensina novas maneiras de realizar o movimento, utilizando outras articulações ou ferramentas que facilitem a tarefa, protegendo a área inflamada.
Tecnologia Assistiva e Órteses: Em alguns casos, o TO pode confeccionar ou indicar o uso de órteses, que são dispositivos que imobilizam ou posicionam a articulação de forma a favorecer o repouso e a recuperação da bursa e dos tendões.
Educação para a Conservação de Energia: O profissional ensina o paciente a planejar seu dia e suas tarefas de forma a evitar o excesso de esforço e a fadiga, prevenindo novas crises de dor.
A abordagem da Terapia Ocupacional é fundamental para quebrar o ciclo de dor e inflamação, permitindo que o paciente retorne às suas atividades de forma segura e sem o risco de uma nova lesão. A colaboração entre fisioterapeuta e terapeuta ocupacional, oferecida de forma integrada pelo SUS, garante uma reabilitação completa e duradoura.
Atenção Especial: A Bursite Séptica
É fundamental diferenciar a bursite inflamatória comum da bursite séptica. Enquanto a primeira é causada por sobrecarga ou trauma, a segunda é uma infecção bacteriana dentro da bursa. É um quadro mais grave que exige tratamento imediato.
A bursite séptica pode ocorrer após um ferimento na pele sobre a bursa, que permite a entrada de bactérias, ou, mais raramente, por disseminação de uma infecção de outra parte do corpo pela corrente sanguínea.
Os sinais de uma bursite séptica incluem, além da dor e do inchaço:
Calor e vermelhidão intensos na pele sobre a bursa.
Febre e calafrios.
Mal-estar geral.
Alerta: Se você suspeita de uma bursite séptica, deve procurar um serviço de pronto-atendimento (UPA ou emergência hospitalar) imediatamente. O diagnóstico é confirmado pela análise do líquido retirado da bursa (punção). O tratamento é feito com antibióticos e, em alguns casos, pode ser necessária uma drenagem cirúrgica para limpar a infecção.
A Importância do Diagnóstico Diferencial
Dor em uma articulação nem sempre é bursite. O profissional de saúde do SUS é treinado para realizar o diagnóstico diferencial, ou seja, para descartar outras condições que podem causar sintomas semelhantes. Isso é crucial para que o tratamento correto seja iniciado.
Outras condições que podem ser confundidas com a bursite incluem:
Tendinite: Como já vimos, a inflamação do tendão.
Artrite/Artrose: Desgaste ou inflamação da própria articulação, que causa dor, rigidez e, por vezes, inchaço.
Lesões Musculares: Estiramentos ou rupturas de músculos próximos à articulação.
Dor Irradiada: Problemas na coluna, como uma hérnia de disco, podem causar dor que irradia para o quadril ou ombro, simulando uma bursite.
Por isso, a avaliação cuidadosa da história do paciente e um exame físico detalhado são tão importantes. Confie no profissional da UBS. Ele saberá diferenciar as condições e, se necessário, solicitar os exames corretos ou encaminhar para o especialista adequado, garantindo que você receba o cuidado que realmente precisa.
Prevenção: A Melhor Forma de Evitar a Bursite
Após o tratamento, ou mesmo para quem nunca teve, a prevenção é fundamental. As dicas são simples e eficazes:
Alongue-se: Principalmente antes e depois de atividades físicas.
Fortaleça seus músculos: Uma musculatura forte e equilibrada protege as articulações.
Evite movimentos repetitivos: Se o seu trabalho exige isso, faça pausas regulares para descansar e alongar.
Ajuste a ergonomia: Verifique a altura da sua cadeira, a posição do seu monitor e a forma como você realiza suas tarefas para evitar sobrecargas.
Use proteções: Se você precisa ficar ajoelhado com frequência, use joelheiras.
A bursite pode ser uma condição dolorosa e frustrante, mas com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, a grande maioria das pessoas se recupera completamente. O SUS oferece todas as ferramentas necessárias para esse cuidado, desde o primeiro atendimento na UBS até a reabilitação completa com a fisioterapia. Se você está com sintomas, não hesite em procurar o postinho mais próximo.
Artigos Relacionados
Cirurgia Ortopédica pelo SUS: Próteses e Implantes Disponíveis
Referências
Saúde para todos
Tudo sobre o Sistema Único de Saúde Brasileiro.
Quem somos
© 2024 Viva o SUS. All rights reserved.
Institucional