Torcicolo Congênito e Adquirido: O Fluxo de Tratamento e Reabilitação no SUS
Entenda o que é torcicolo, como é diagnosticado na UBS e o acesso à fisioterapia e tratamentos de alta complexidade, como o Botox, pelo Sistema Único de Saúde.
1/2/20268 min read


Torticolo: Tratamento e Fisioterapia Acessíveis pelo SUS
O torticolo, popularmente conhecido como "torcicolo", é uma condição que causa a inclinação e rotação involuntária da cabeça e do pescoço. Embora a forma mais comum seja o torcicolo agudo, que resolve em poucos dias, existem casos mais complexos, como o torticolo congênito, que exige intervenção precoce e especializada.
Para milhões de brasileiros, o Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal via de acesso ao diagnóstico e tratamento do torcicolo, oferecendo desde o manejo inicial na Atenção Primária até a reabilitação com fisioterapia e, em casos raros, cirurgia. Este guia detalhado explica como o SUS atua no tratamento dessa condição, com foco em uma linguagem didática e humanizada.
O Que é Torticolo e Seus Tipos
O termo torticolo descreve uma postura anormal da cabeça e do pescoço, onde a cabeça está inclinada para um lado e o queixo rotacionado para o lado oposto.
Existem dois tipos principais que o SUS atende:
1. Torticolo Adquirido (Agudo)
É a forma mais comum, que surge de repente e geralmente está ligada a:
Causas Musculares: Contratura ou espasmo do músculo esternocleidomastoideo (o principal músculo do pescoço) ou dos músculos trapézios, muitas vezes devido a má postura ao dormir, estresse ou movimentos bruscos.
Causas Articulares: Inflamação ou bloqueio de uma das pequenas articulações da coluna cervical.
Causas Infecciosas: Raramente, pode ser causado por infecções na garganta ou ouvidos que levam a um espasmo muscular reflexo (torticolo inflamatório).
2. Torticolo Congênito
É uma condição presente desde o nascimento ou que se manifesta nas primeiras semanas de vida do bebê. A causa mais comum é o Torticolo Muscular Congênito (TMC), que ocorre devido ao encurtamento ou fibrose do músculo esternocleidomastoideo, muitas vezes relacionado à posição do bebê no útero ou a um parto difícil.
O diagnóstico e o tratamento precoce do TMC são cruciais para evitar problemas de desenvolvimento, como a plagiocefalia (assimetria da cabeça) e assimetrias faciais.
O Fluxo de Atendimento no SUS para Torticolo
O tratamento do torcicolo no SUS é dividido de acordo com o tipo e a gravidade da condição.
1. Atenção Primária (UBS) - O Manejo Inicial
Para o torticolo adquirido (agudo), a UBS é a porta de entrada. O médico de família ou clínico geral realiza o diagnóstico e o tratamento inicial:
Diagnóstico: É feito pela história clínica e exame físico, observando a postura do pescoço e a limitação de movimento.
Tratamento Farmacológico: Prescrição de analgésicos (como Paracetamol ou Dipirona) e relaxantes musculares para aliviar o espasmo e a dor.
Orientações: Recomenda-se o uso de calor local (bolsa de água quente) e massagem suave na região.
Se o torcicolo não melhorar em poucos dias ou se for um caso de torticolo congênito, o encaminhamento para a reabilitação é imediato.
2. Atenção Especializada - Fisioterapia e Reabilitação
A Fisioterapia é o tratamento de primeira linha e mais eficaz para o torcicolo, especialmente o congênito. O SUS garante o acesso a esse serviço através dos Centros Especializados em Reabilitação (CER) ou de ambulatórios de especialidades.
Torticolo Congênito: A Urgência da Fisioterapia
No caso do bebê com TMC, a intervenção da fisioterapia deve ser iniciada o mais rápido possível, idealmente antes dos 3 meses de idade.
Técnicas: O fisioterapeuta utiliza alongamentos passivos e ativos do músculo afetado, exercícios de fortalecimento e orientações aos pais sobre o posicionamento do bebê (durante o sono, alimentação e brincadeiras) para estimular o movimento da cabeça para o lado afetado.
Resultados: A taxa de sucesso da fisioterapia é altíssima (acima de 90%) quando iniciada precocemente.
Torticolo Adquirido: Fisioterapia para a Recuperação
Para o torcicolo adquirido que se torna persistente, a fisioterapia atua para:
Alívio da Dor: Uso de calor, TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) e técnicas de liberação miofascial.
Recuperação do Movimento: Exercícios de amplitude de movimento e fortalecimento para evitar a recorrência.
3. Casos Raros: Cirurgia e Outras Especialidades
A cirurgia é uma opção rara e é reservada para:
Torticolo Congênito: Casos que não respondem à fisioterapia intensiva após 12 a 18 meses, ou quando a fibrose muscular é muito grave.
Torticolo Espasmódico (Distonia Cervical): Uma forma rara e crônica, tratada com medicamentos e, em alguns casos, injeções de toxina botulínica (Botox) pelo SUS, sob acompanhamento de Neurologistas.
O Papel da Terapia Ocupacional e do Cuidado Integral
O tratamento do torcicolo, especialmente o congênito, é um exemplo de cuidado integral no SUS.
Terapia Ocupacional (TO)
O Terapeuta Ocupacional (TO) é fundamental no tratamento do TMC, atuando em conjunto com o fisioterapeuta:
Plagiocefalia: O TO ajuda a prevenir e tratar a assimetria craniana (plagiocefalia) que pode ocorrer devido à posição viciosa da cabeça, orientando os pais sobre o posicionamento e o uso de órteses (capacete), se necessário.
Desenvolvimento Motor: Garante que o bebê desenvolva habilidades motoras normais, apesar da restrição de movimento inicial.
Práticas Integrativas e Complementares (PICs)
A Acupuntura e a Auriculoterapia também podem ser utilizadas no SUS para o manejo da dor e do espasmo muscular associado ao torcicolo adquirido, complementando o tratamento convencional.
Torticolo Espasmódico (Distonia Cervical): O Tratamento de Alta Complexidade
O Torticolo Espasmódico, também conhecido como Distonia Cervical, é a forma mais complexa e crônica do torcicolo. É um distúrbio neurológico que causa contrações musculares involuntárias e sustentadas do pescoço, resultando em movimentos repetitivos ou posturas anormais da cabeça.
O tratamento dessa condição no SUS é de alta complexidade e segue um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) específico do Ministério da Saúde [4].
O Papel da Neurologia e Fisiatria
O diagnóstico e o manejo da Distonia Cervical são realizados por especialistas:
Neurologista: É o profissional que confirma o diagnóstico da distonia e coordena o tratamento medicamentoso.
Fisiatra: Médico especialista em reabilitação, que atua na prescrição de terapias físicas e no acompanhamento da funcionalidade.
Tratamento com Toxina Botulínica (Botox) pelo SUS
O tratamento de primeira linha e mais eficaz para a Distonia Cervical é a aplicação de Toxina Botulínica (Botox). O SUS garante o acesso a este medicamento de alto custo através do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF).
Como Funciona: A Toxina Botulínica é injetada diretamente nos músculos do pescoço que estão em contração excessiva. Ela age bloqueando a liberação de substâncias que causam a contração, relaxando o músculo e aliviando a postura anormal e a dor.
Fluxo de Acesso: Para ter acesso ao Botox pelo SUS, o paciente precisa de um laudo médico detalhado (geralmente do Neurologista ou Fisiatra) e seguir o fluxo estabelecido pelo PCDT de Distonias Focais [4], que inclui a abertura de um processo administrativo na Secretaria Estadual de Saúde.
Fisioterapia e Reabilitação Complementar
Mesmo com a aplicação da Toxina Botulínica, a fisioterapia continua sendo essencial. Ela atua para:
Fortalecimento: Fortalecer os músculos que não foram injetados e que ajudam a manter a postura correta.
Reeducação Postural: Ensinar o paciente a usar os músculos de forma mais eficiente e a controlar a postura da cabeça.
O Papel Crucial da Terapia Manual e da Orientação aos Pais no Torticolo Congênito
O sucesso do tratamento do Torticolo Muscular Congênito (TMC), a forma mais comum em bebês, depende fundamentalmente de duas abordagens que o SUS busca oferecer: a Terapia Manual e a Orientação Postural detalhada aos pais.
Terapia Manual na Fisioterapia
A Terapia Manual é um conjunto de técnicas especializadas que o fisioterapeuta utiliza para restaurar a função e o movimento. No caso do TMC, ela é aplicada para:
Alongamento Suave: O fisioterapeuta realiza alongamentos específicos e suaves no músculo esternocleidomastoideo encurtado, visando aumentar a amplitude de movimento do pescoço do bebê.
Mobilização Articular: Técnicas para garantir que as articulações da coluna cervical do bebê estejam se movendo corretamente, o que é vital para o desenvolvimento motor.
Liberação Miofascial: Ajuda a "soltar" a tensão e a fibrose no músculo, permitindo que ele se alongue de forma mais eficaz.
Orientação Postural: O Tratamento em Casa
A parte mais importante do tratamento do TMC acontece em casa, com a participação ativa dos pais. O fisioterapeuta e o terapeuta ocupacional do SUS orientam os pais sobre como integrar o tratamento na rotina diária do bebê:
Posicionamento no Berço: O bebê deve ser posicionado de forma que ele seja incentivado a virar a cabeça para o lado afetado para olhar para os pais ou para brinquedos.
"Tummy Time" (Tempo de Barriga): É fundamental que o bebê passe tempo de bruços (de barriga para baixo) enquanto está acordado e supervisionado. Isso fortalece os músculos do pescoço e do tronco, essenciais para corrigir o torcicolo.
Alimentação e Transporte: Os pais são instruídos a segurar o bebê e alimentá-lo de uma maneira que estimule o alongamento do músculo encurtado.
O tratamento do TMC é um excelente exemplo de como a Atenção Primária e a Reabilitação do SUS trabalham em conjunto, transformando o conhecimento técnico em ações práticas e acessíveis para as famílias. A intervenção precoce e a dedicação dos pais, guiadas pelos profissionais do SUS, são a chave para a recuperação total do bebê.
Critérios Diagnósticos e Sinais de Alerta (Red Flags) no SUS
O diagnóstico do torcicolo na Atenção Primária (UBS) é primariamente clínico, mas o profissional de saúde está sempre atento a critérios que indicam a necessidade de investigação mais aprofundada ou encaminhamento urgente.
Sinais de Alerta (Red Flags)
Os "sinais de alerta" são sintomas que sugerem que o torcicolo pode ser secundário a uma condição mais grave, não apenas um espasmo muscular simples. O SUS orienta os profissionais a encaminhar o paciente para a atenção secundária (especialista) se houver:
Febre ou sintomas sistêmicos (perda de peso, mal-estar).
Dor que não melhora com o tratamento inicial ou que piora progressivamente.
Sintomas neurológicos (fraqueza, dormência, formigamento nos braços ou pernas).
Torticolo em crianças que não seja o congênito e que surja após um trauma ou infecção.
Torticolo fixo que impede o movimento normal da cabeça.
O Papel dos Exames de Imagem
O SUS adota uma postura cautelosa quanto à solicitação de exames de imagem, evitando a medicalização desnecessária.
Radiografia (Raio-X): É o exame inicial, geralmente solicitado para descartar fraturas, luxações ou alterações ósseas na coluna cervical.
Ressonância Magnética (RM) e Tomografia Computadorizada (TC): São exames de alta complexidade e só são solicitados pelo especialista (Ortopedista, Neurocirurgião ou Neurologista) quando há suspeita de compressão nervosa, hérnia de disco, tumor ou outras causas estruturais graves. O acesso a esses exames é feito via regulação do SUS.
A chave do tratamento no SUS é a abordagem conservadora e a reabilitação, reservando os exames e procedimentos mais complexos para os casos em que há uma real necessidade clínica.
Tabela Resumo: Tipos de Torticolo e Tratamento no SUS
Acesso à Cirurgia pelo SUS
A cirurgia para torcicolo é rara, mas está prevista na Tabela de Procedimentos do SUS. O código 0408030763 refere-se ao TRATAMENTO CIRÚRGICO DE TORCICOLO CONGÊNITO [5]. A indicação cirúrgica é feita por um Ortopedista ou Neurocirurgião em casos de falha do tratamento conservador e fisioterápico.
O SUS, com sua rede de atenção integral, garante que, desde o tratamento simples do torcicolo agudo até o acesso a medicamentos de alto custo como a Toxina Botulínica, o cidadão tenha o suporte necessário para recuperar a saúde e a qualidade de vida.
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