Dor no Pescoço (Cervicalgia): O Tratamento Multidisciplinar Oferecido pelo SUS
Entenda o fluxo de atendimento para dor no pescoço no Sistema Único de Saúde, desde a UBS até o tratamento especializado com fisioterapia e Práticas Integrativas e Complementares (PICs).
1/2/20267 min read


Dor no Pescoço (Cervicalgia): Como o SUS Ajuda no Diagnóstico e Tratamento
A dor no pescoço, clinicamente conhecida como cervicalgia, é um problema de saúde extremamente comum que afeta milhões de brasileiros. Seja por má postura no trabalho, estresse ou até mesmo por um movimento brusco, a dor na região cervical pode ser incapacitante e, se não tratada corretamente, tornar-se crônica.
Felizmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um caminho completo e acessível para o diagnóstico e tratamento da cervicalgia, desde a Unidade Básica de Saúde (UBS) até a reabilitação especializada. Este guia detalhado foi criado para que você, cidadão, entenda como funciona o fluxo de atendimento e quais são as opções de tratamento disponíveis para aliviar a sua dor no pescoço.
O Que Causa a Dor no Pescoço (Cervicalgia)?
A cervicalgia é a dor localizada na parte de trás ou nas laterais do pescoço. Assim como a lombalgia (dor nas costas), a maioria dos casos é inespecífica, ou seja, não está ligada a uma doença grave, mas sim a problemas musculares e articulares.
As causas mais comuns incluem:
Má Postura: Passar longas horas com a cabeça inclinada para baixo (olhando o celular, por exemplo, o chamado "text neck") ou com a postura inadequada no computador.
Tensão Muscular e Estresse: O estresse emocional leva à contração involuntária dos músculos do pescoço e ombros.
Traumas: Acidentes de carro (o famoso "efeito chicote") ou quedas.
Problemas Degenerativos: Com o avanço da idade, as articulações e os discos da coluna cervical podem sofrer desgaste (osteoartrite ou espondilose cervical).
Hérnia de Disco Cervical: O extravasamento do material do disco intervertebral que pode comprimir nervos, causando dor que irradia para o braço (cervicobraquialgia).
O Fluxo de Atendimento para Cervicalgia no SUS
O tratamento da dor no pescoço no SUS começa na Atenção Primária à Saúde (APS), a porta de entrada para o sistema.
1. Atenção Primária (UBS) - O Primeiro Passo
Ao sentir dor no pescoço, o primeiro passo é procurar a UBS mais próxima. O médico de família ou o clínico geral fará o manejo inicial.
Diagnóstico e Sinais de Alerta: O profissional fará perguntas detalhadas sobre a dor (quando começou, o que a piora, se irradia para o braço) e realizará um exame físico. O principal objetivo é descartar os sinais de alerta (red flags) que indicam uma condição mais grave, como:
Febre, perda de peso inexplicada.
Dor que piora à noite e não melhora com repouso.
Fraqueza ou dormência nos braços e mãos (sinais de compressão nervosa ou medular).
Tratamento Inicial (Cervicalgia Aguda): Para a dor inespecífica, o tratamento inicial é conservador e focado em:
Orientação: Manter-se ativo, evitar o uso de colar cervical (exceto em casos específicos de trauma) e corrigir a postura.
Medicamentos: Uso de analgésicos (como Paracetamol ou Dipirona) e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por um período curto [1]. Relaxantes musculares também podem ser prescritos.
Encaminhamento para Fisioterapia: A fisioterapia é o tratamento não medicamentoso mais recomendado e deve ser iniciado o mais rápido possível.
2. Atenção Secundária - O Tratamento Especializado
Se a dor persistir por mais de 4 a 6 semanas, ou se houver sinais de alerta, o paciente será encaminhado para a atenção secundária.
Especialistas: O paciente pode ser avaliado por um Ortopedista, Reumatologista ou Fisiatra.
Exames de Imagem: Exames como Raio-X, Tomografia Computadorizada (TC) ou Ressonância Magnética (RM) são solicitados apenas se houver suspeita de hérnia de disco, fratura, tumor ou outra causa específica. O SUS segue a diretriz de evitar exames desnecessários em casos de dor inespecífica.
O Tratamento Multidisciplinar e a Fisioterapia no SUS
O tratamento da cervicalgia crônica no SUS é multidisciplinar, envolvendo diversos profissionais para garantir a recuperação completa do paciente.
Fisioterapia: O Pilar do Tratamento
A Fisioterapia é o tratamento de primeira linha para a maioria dos casos de dor no pescoço. O SUS oferece o serviço de reabilitação física, que pode ser acessado via UBS ou Centros Especializados em Reabilitação (CER).
Técnicas Manuais: O fisioterapeuta utiliza técnicas de mobilização e manipulação para restaurar o movimento normal das articulações do pescoço.
Exercícios Terapêuticos: O foco principal é o fortalecimento dos músculos profundos do pescoço e dos ombros, essenciais para a estabilidade da coluna cervical.
Eletroterapia: Uso de TENS (Estimulação Elétrica Nervosa Transcutânea) para alívio da dor.
Práticas Integrativas e Complementares (PICs)
O SUS reconhece a eficácia de diversas PICs no manejo da dor crônica, incluindo a cervicalgia.
Acupuntura: A Acupuntura é uma opção terapêutica disponível em muitas unidades de saúde do SUS e é recomendada para o alívio da dor crônica no pescoço.
Auriculoterapia: Técnica que utiliza pontos na orelha para alívio da dor.
Yoga e Meditação: Contribuem para a redução da tensão muscular associada ao estresse e melhoram a consciência corporal.
A Cervicobraquialgia: Quando a Dor Irradia para o Braço
A cervicobraquialgia é a dor que começa no pescoço e irradia para o ombro, braço e, às vezes, até a mão. Isso geralmente indica que há compressão ou irritação de uma raiz nervosa (dor neuropática), sendo a hérnia de disco cervical a causa mais comum.
Tratamento Farmacológico Específico: Nesses casos, o tratamento medicamentoso é ajustado para incluir medicamentos que atuam na dor neuropática, como os anticonvulsivantes (Gabapentina, Pregabalina) e antidepressivos (Amitriptilina), que ajudam a modular a dor.
Encaminhamento para Neurocirurgia/Ortopedia: A cirurgia é uma opção rara e é reservada para casos de dor refratária (que não melhora com o tratamento clínico e fisioterápico) ou quando há sinais de compressão medular grave.
O Terapeuta Ocupacional e a Reintegração Funcional
Dentro da equipe multidisciplinar do SUS, o Terapeuta Ocupacional (TO) desempenha um papel crucial na reabilitação do paciente com cervicalgia crônica, focando na reintegração funcional e na qualidade de vida.
O TO atua na:
Análise da Atividade: Avalia como a dor afeta as atividades diárias do paciente (trabalho, lazer, autocuidado).
Adaptação do Ambiente: Sugere modificações no ambiente de trabalho ou em casa (ergonomia) para reduzir a sobrecarga na coluna.
Treinamento de Habilidades: Ensina o paciente a realizar tarefas de forma mais segura e eficiente, minimizando o risco de lesões e a intensidade da dor. Por exemplo, técnicas corretas para levantar objetos, vestir-se ou cozinhar.
A intervenção do Terapeuta Ocupacional é vital para que o paciente com dor crônica consiga retomar sua rotina com autonomia e confiança, um passo essencial para a reabilitação completa.
O Cuidado Integral: Saúde Mental e Clínicas de Dor no SUS
A dor crônica, incluindo a cervicalgia, não afeta apenas o corpo físico. Ela tem um impacto profundo na saúde mental, podendo levar à ansiedade, depressão e isolamento social. Por isso, o tratamento no SUS adota uma visão integral do paciente.
Apoio Psicológico e Psiquiátrico
O SUS oferece acesso a profissionais de saúde mental que são essenciais no manejo da dor crônica:
Psicólogos: Através da Atenção Primária (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o paciente pode receber acompanhamento psicológico para aprender a lidar com o impacto emocional da dor, desenvolver estratégias de enfrentamento e reduzir o estresse, que é um grande fator de tensão muscular no pescoço.
Psiquiatras: Em casos onde a dor crônica está associada a transtornos de humor (como depressão e ansiedade), o psiquiatra pode ajustar a medicação, pois alguns antidepressivos e ansiolíticos também têm efeito na modulação da dor.
Clínicas de Dor e Tratamento Intervencionista
Para os casos mais complexos e refratários, o SUS dispõe de serviços especializados, geralmente em hospitais de referência ou ambulatórios de especialidades, conhecidos como Clínicas de Dor ou Centros de Dor Crônica.
Nesses centros, o paciente tem acesso a:
Equipe Multiprofissional Especializada: Médicos algologistas (especialistas em dor), fisiatras, fisioterapeutas, psicólogos e enfermeiros trabalham em conjunto.
Procedimentos Intervencionistas: São técnicas minimamente invasivas, como bloqueios anestésicos e infiltrações, que são realizadas para aliviar a dor diretamente na origem do problema (por exemplo, na raiz nervosa ou nas articulações facetárias da coluna cervical).
Ajuste Fino do Tratamento: É o local onde o tratamento farmacológico e não farmacológico é ajustado de forma mais precisa, buscando a melhor combinação de terapias para cada caso.
O encaminhamento para uma Clínica de Dor é feito pelo médico especialista (Ortopedista ou Fisiatra) da atenção secundária, após a falha do tratamento conservador inicial.
A Importância da Educação em Saúde e da Postura
Reforçando o caráter didático e humanizado, a educação em saúde é a ferramenta mais poderosa que o SUS oferece na APS para prevenir a cervicalgia.
"Escola da Coluna": Muitas UBS e Centros de Reabilitação oferecem grupos de educação em saúde, onde os pacientes aprendem sobre a anatomia da coluna, a mecânica da dor e, principalmente, a higiene postural.
Dicas Práticas para o Dia a Dia:
Ao Dormir: Use um travesseiro que mantenha a cabeça alinhada com a coluna (nem muito alto, nem muito baixo).
Ao Usar o Celular: Tente elevar o aparelho na altura dos olhos para evitar inclinar o pescoço.
No Computador: O monitor deve estar na altura dos olhos e a cadeira deve ter um encosto que apoie a coluna cervical.
O tratamento da dor no pescoço no SUS é um caminho que exige a participação ativa do paciente, mas que oferece todas as ferramentas necessárias para o alívio da dor e a recuperação da funcionalidade, desde o medicamento na farmácia básica até a reabilitação especializada e o apoio psicológico.
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