Palpitações: investigação, diagnóstico e tratamento pelo SUS

Entenda como o SUS avalia as palpitações, quais exames podem ser solicitados, possíveis causas e como funciona o acompanhamento na rede pública de saúde.

1/5/20268 min read

Palpitações: O Que São e Como o SUS Investiga

Palpitações são a percepção incômoda dos próprios batimentos cardíacos. Elas podem ser sentidas como batidas rápidas, fortes, irregulares ou como uma "falha" no ritmo do coração. Embora sejam uma queixa muito comum e, na maioria das vezes, benigna, as palpitações podem gerar grande ansiedade, pois o coração é imediatamente associado a problemas graves.

Entender as causas das palpitações e como o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza a avaliação cardiológica é fundamental para tranquilizar e orientar a população.

O Que Causa as Palpitações?

As palpitações podem ter inúmeras causas, desde situações cotidianas e inofensivas até doenças cardíacas que exigem tratamento. É importante ressaltar que a grande maioria dos casos não está relacionada a problemas graves.

Causas Não Cardíacas (as mais comuns)

  1. Estresse e Ansiedade: A ansiedade e o estresse liberam hormônios, como a adrenalina, que aceleram os batimentos cardíacos, causando palpitações. Crises de pânico são frequentemente acompanhadas por palpitações intensas.

  2. Consumo de Estimulantes: Cafeína (café, chás, refrigerantes, energéticos), nicotina (cigarro) e álcool são substâncias que podem irritar o sistema elétrico do coração e provocar palpitações.

  3. Atividade Física: É normal sentir o coração bater mais forte e rápido durante e após o exercício. Isso é uma resposta fisiológica do corpo.

  4. Alterações Hormonais: Gravidez, menopausa e problemas na tireoide (hipertireoidismo) podem causar palpitações.

  5. Febre e Desidratação: A febre e a baixa ingestão de líquidos podem acelerar o coração.

  6. Anemia: A falta de glóbulos vermelhos no sangue faz com que o coração precise trabalhar mais para oxigenar o corpo, o que pode ser sentido como palpitações.

Causas Cardíacas

Embora menos frequentes, as causas cardíacas são as que mais preocupam e precisam ser investigadas, especialmente se as palpitações vierem acompanhadas de outros sintomas.

  1. Arritmias: São a principal causa cardíaca de palpitações. Existem vários tipos de arritmias, desde as benignas, como as extrassístoles (batimentos extras que dão a sensação de uma "falha"), até as mais graves, como a fibrilação atrial e as taquicardias supraventriculares ou ventriculares.

  2. Doenças Estruturais do Coração: Problemas nas válvulas cardíacas, doenças do músculo do coração (cardiomiopatias) ou histórico de infarto podem causar palpitações.

A Avaliação das Palpitações no SUS

A investigação começa na Unidade Básica de Saúde (UBS), com o médico da família. A consulta é a etapa mais importante para direcionar o diagnóstico.

A Consulta Médica

O médico fará uma anamnese detalhada para entender as características das palpitações:

  • Como elas são? (Rápidas? Irregulares? Fortes?)

  • Quando elas acontecem? (Em repouso? Durante o esforço? Após consumir algo?)

  • Quanto tempo duram? (Segundos? Minutos? Horas?)

  • Como elas começam e terminam? (De repente? Gradualmente?)

  • Há outros sintomas associados? (Tontura, desmaio, falta de ar, dor no peito?)

  • Qual o seu histórico de saúde e o da sua família?

Exames Iniciais

Com base na suspeita clínica, o médico solicitará exames iniciais, que são fundamentais para a avaliação:

  • Eletrocardiograma (ECG): É o exame mais importante na avaliação inicial. Ele registra a atividade elétrica do coração e pode identificar uma arritmia que esteja ocorrendo no momento do exame ou mostrar sinais que sugiram uma doença cardíaca estrutural.

  • Exames de Sangue: Para investigar causas não cardíacas, como anemia, problemas na tireoide e alterações nos eletrólitos (sódio, potássio).

O Encaminhamento para o Cardiologista

Se o médico da família suspeitar de uma causa cardíaca ou se as palpitações forem muito sintomáticas, ele fará o encaminhamento para o cardiologista, o especialista do coração no SUS. O cardiologista poderá solicitar exames mais aprofundados para capturar a arritmia e avaliar a estrutura do coração.

Exames Especializados Disponíveis no SUS

  • Holter de 24 horas: Este é um dos exames mais importantes. O paciente fica com um pequeno aparelho portátil conectado ao peito por 24 horas, que registra continuamente o eletrocardiograma. Isso permite detectar arritmias que não aparecem no ECG de repouso. O paciente anota em um diário os horários em que sentiu as palpitações, para que o médico possa correlacionar os sintomas com o registro elétrico.

  • Ecocardiograma: É um ultrassom do coração. Ele avalia a estrutura do músculo cardíaco, o funcionamento das válvulas e a capacidade de bombeamento do coração. É essencial para descartar doenças estruturais.

  • Teste Ergométrico (Teste da Esteira): O paciente caminha ou corre em uma esteira enquanto seu coração é monitorado. O exame é útil para investigar palpitações que ocorrem durante o esforço físico.

A Conexão Entre Palpitações e Saúde Mental

É impossível falar de palpitações sem abordar a profunda conexão com a saúde mental. A ansiedade é uma das principais causas de percepção dos batimentos cardíacos. Em um ciclo vicioso, a ansiedade causa palpitações, e a sensação das palpitações aumenta ainda mais a ansiedade, criando um estado de hipervigilância e medo.

Como a Ansiedade Causa Palpitações?

  • Liberação de Adrenalina: Em um estado de ansiedade ou pânico, o corpo entra em modo de "luta ou fuga", liberando adrenalina. Este hormônio prepara o corpo para uma ameaça, aumentando a frequência e a força dos batimentos cardíacos.

  • Hipervigilância: Pessoas ansiosas tendem a ser mais atentas às sensações do próprio corpo. Um batimento cardíaco que passaria despercebido para a maioria das pessoas pode ser percebido de forma amplificada e assustadora por alguém em estado de ansiedade.

A Abordagem da Saúde Mental no SUS:

Quando o médico da família identifica que as palpitações estão fortemente ligadas a quadros de ansiedade ou estresse, a abordagem muda. Além de tranquilizar o paciente sobre a ausência de uma doença cardíaca grave, ele pode:

  • Encaminhar para o Psicólogo: O SUS oferece atendimento psicológico nas UBS (através do NASF - Núcleo de Apoio à Saúde da Família) ou em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A terapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), é muito eficaz para aprender a gerenciar a ansiedade e quebrar o ciclo vicioso com as palpitações.

  • Práticas Integrativas e Complementares (PICs): O SUS também incentiva práticas que ajudam no controle do estresse, como meditação, yoga e acupuntura, que podem estar disponíveis na sua UBS.

  • Tratamento Medicamentoso: Em casos mais intensos, o médico pode prescrever medicamentos para controlar a ansiedade (ansiolíticos) ou antidepressivos, que também são muito eficazes no tratamento de transtornos de ansiedade.

O Diário de Sintomas: Uma Ferramenta Poderosa

Uma das ferramentas mais úteis que o médico pode pedir é um diário de sintomas. Anotar detalhadamente quando as palpitações ocorrem ajuda tanto o paciente quanto o médico a identificar padrões e gatilhos. Isso é especialmente útil quando o Holter de 24 horas não consegue capturar um episódio.

O que anotar no seu diário?

01/07/20XX 15:30

  • O que você estava fazendo?: Sentado, trabalhando no computador.

  • O que comeu ou bebeu?: Tomei 2 xícaras de café.

  • Como estava se sentindo? (emocional): Estressado com um prazo.

  • Duração da Palpitação: Cerca de 5 minutos.

  • Outros Sintomas?: Leve tontura.

02/07/20XX 22:00

  • O que você estava fazendo?: Deitado, tentando dormir.

  • O que comeu ou bebeu?: Jantei normalmente.

  • Como estava se sentindo? (emocional): Ansioso com o dia seguinte.

  • Duração da Palpitação: Vários episódios curtos.

  • Outros Sintomas?: N/A

Levar este diário para a consulta no SUS fornece ao médico informações valiosas que exames isolados podem não mostrar, permitindo um diagnóstico mais preciso e um plano de tratamento mais eficaz, seja ele focado em mudanças no estilo de vida, tratamento cardiológico ou suporte à saúde mental.

Quando se Preocupar? Sinais de Alerta

Apesar de a maioria dos casos ser benigna, é crucial saber identificar os sinais de alerta que indicam a necessidade de uma avaliação médica mais urgente. Procure atendimento em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou pronto-socorro se as palpitações vierem acompanhadas de:

  • Dor ou desconforto no peito: Pode ser um sinal de angina ou infarto.

  • Falta de ar intensa: Especialmente se ocorrer em repouso.

  • Tontura ou vertigem severa: Sensação de que a cabeça está "vazia" ou de que o ambiente está girando.

  • Desmaio (síncope): A perda de consciência durante um episódio de palpitação é sempre um sinal de alerta.

  • Início súbito de um ritmo muito rápido e regular: Pode indicar uma taquicardia que precisa ser revertida no hospital.

Palpitações em Grupos Específicos

Certas populações podem ter causas ou manifestações específicas de palpitações que merecem atenção.

Gestantes

Durante a gravidez, o corpo da mulher passa por mudanças drásticas. O volume de sangue aumenta, a frequência cardíaca de repouso sobe e o coração trabalha mais. Por isso, é muito comum que gestantes sintam palpitações. Na maioria das vezes, são benignas e fazem parte da adaptação do corpo. No entanto, a gestante deve sempre comunicar o sintoma ao médico que faz seu pré-natal no SUS, para que ele possa avaliar e descartar outras causas, como anemia ou arritmias preexistentes que possam se agravar na gestação.

Idosos

Com o envelhecimento, o sistema elétrico do coração pode sofrer desgastes, tornando as arritmias mais comuns. A fibrilação atrial, por exemplo, é uma arritmia cuja prevalência aumenta muito com a idade. Ela causa um ritmo cardíaco irregular e rápido e aumenta significativamente o risco de AVC (Acidente Vascular Cerebral). Por isso, palpitações em idosos, especialmente se forem irregulares, devem sempre ser investigadas pelo médico no SUS.

Atletas

Atletas, por terem um coração mais forte e adaptado ao esforço, podem ter uma frequência cardíaca de repouso mais baixa e, ocasionalmente, sentir batimentos mais fortes ou pausas (extrassístoles), que geralmente são benignas. Contudo, palpitações que ocorrem durante o esforço máximo, acompanhadas de tontura ou queda de rendimento, devem ser avaliadas por um cardiologista do esporte ou um cardiologista no SUS para descartar arritmias perigosas induzidas pelo exercício.

Tratamento das Palpitações no SUS

O tratamento dependerá da causa identificada.

  • Causas Não Cardíacas: Se a causa for ansiedade, o tratamento pode envolver psicoterapia e, se necessário, medicamentos. Se for por estimulantes, a orientação será para reduzir ou evitar o consumo. Se for anemia ou problema na tireoide, o tratamento será direcionado para essas condições.

  • Arritmias Benignas: Muitas vezes, as extrassístoles não necessitam de tratamento, apenas de orientação e tranquilização do paciente.

  • Arritmias Significativas: Para arritmias como a fibrilação atrial ou taquicardias, o tratamento pode incluir medicamentos para controlar o ritmo cardíaco (antiarrítmicos), medicamentos para prevenir a formação de coágulos (anticoagulantes, no caso da fibrilação atrial) ou até mesmo procedimentos mais complexos, como a ablação por cateter, um procedimento minimamente invasivo realizado pelo SUS para "cauterizar" o foco da arritmia.

Sentir palpitações pode ser assustador, mas é importante saber que o SUS oferece uma linha de cuidado completa, desde a avaliação inicial na UBS até os procedimentos mais complexos com o cardiologista. Procurar o médico da família é o primeiro e mais importante passo para um diagnóstico correto e um tratamento eficaz.