Fratura óssea: atendimento, tratamento e recuperação pelo SUS
Veja como funciona o atendimento a fraturas pelo SUS, desde o primeiro socorro até o tratamento e a recuperação, incluindo os direitos do paciente.
1/5/20268 min read


Fraturas: Atendimento de Urgência e Tratamento pelo SUS
Um osso quebrado, ou uma fratura, é uma das emergências médicas mais comuns e assustadoras. Seja por uma queda, um acidente de trânsito ou durante a prática de esportes, a dor intensa e a incapacidade de mover um membro são sinais de que algo sério aconteceu. Nesses momentos, saber como agir e para onde ir é fundamental. O Sistema Único de Saúde (SUS) está preparado para oferecer todo o cuidado necessário, desde o primeiro atendimento de urgência até a reabilitação completa.
Este guia detalhado e humanizado vai explicar o que é uma fratura, quais os tipos mais comuns, como o atendimento de urgência funciona no SUS e quais são os passos do tratamento até a recuperação total.
O Que é uma Fratura?
De forma simples, uma fratura é a perda da continuidade de um osso, ou seja, ele se quebra. As fraturas podem variar muito em gravidade, desde uma pequena fissura até uma quebra completa em múltiplos pedaços.
As fraturas podem ser classificadas de várias maneiras, mas uma das mais importantes para o público geral é a diferença entre fratura fechada e fratura exposta:
Fratura Fechada: O osso se quebra, mas a pele ao redor permanece intacta. Apesar de não haver ferida visível, pode haver um grande inchaço e hematoma.
Fratura Exposta (ou Aberta): O osso quebrado perfura a pele, ficando exposto ao ambiente. Este tipo de fratura é uma emergência mais grave devido ao alto risco de infecção.
Sinais e Sintomas de uma Fratura
Os sinais mais comuns de uma fratura incluem:
Dor intensa no local, que piora com o movimento ou a pressão.
Inchaço (edema) e formação de hematoma (mancha roxa).
Deformidade visível no membro, que pode parecer torto ou fora do lugar.
Incapacidade de mover o membro afetado.
Um som de estalo no momento da lesão.
Em fraturas expostas, a presença de osso visível através de um ferimento na pele.
Primeiros Socorros: O Que Fazer (e Não Fazer) em Caso de Suspeita de Fratura
Mantenha a Calma e Chame Ajuda: A primeira atitude é chamar o serviço de emergência. Ligue para o SAMU (192). Eles são treinados para dar as primeiras orientações por telefone e enviar uma ambulância equipada para o transporte seguro.
Não Mova a Vítima (se houver suspeita de lesão na coluna): Em acidentes graves, como quedas de altura ou acidentes de carro, nunca tente mover a pessoa, a menos que haja um risco iminente (como um incêndio). Movimentos inadequados podem agravar uma lesão na coluna e causar danos neurológicos permanentes.
Imobilize o Membro Afetado: Se a ajuda for demorar e for seguro mover a pessoa, tente imobilizar o membro na posição em que ele se encontra. Use talas improvisadas (como pedaços de papelão, madeira ou revistas enroladas) e amarre-as com panos ou cintos acima e abaixo da lesão. O objetivo é evitar que o osso quebrado se mova, o que diminui a dor e previne mais danos.
Não Tente "Colocar o Osso no Lugar": Jamais tente realinhar um membro deformado. Isso pode causar mais dor, lesar nervos e vasos sanguíneos, e transformar uma fratura fechada em uma exposta.
Controle o Sangramento (em fraturas expostas): Se houver uma ferida sangrando, aplique uma pressão suave sobre ela com um pano limpo. Não tente lavar a ferida ou empurrar o osso para dentro.
O Fluxo de Atendimento de Fraturas no SUS
O atendimento a fraturas no SUS é feito em uma rede hierarquizada, garantindo que cada paciente receba o cuidado adequado para a sua necessidade.
1. Atendimento de Urgência: UPA 24h e Pronto-Socorro
O primeiro local de atendimento para uma fratura é uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) ou o pronto-socorro de um hospital. Ao chegar, o paciente passará por uma triagem de enfermagem que irá classificar a gravidade do caso (geralmente por cores) para priorizar o atendimento.
O médico do pronto-atendimento irá:
Realizar o exame físico para avaliar a extensão da lesão.
Solicitar um Raio-X, que é o principal exame para confirmar a fratura, mostrar sua localização e o tipo de traço.
Em casos mais complexos, como fraturas articulares ou politraumatizados, uma Tomografia Computadorizada pode ser necessária para um planejamento cirúrgico detalhado.
2. Tratamento Imediato
Com a fratura confirmada, o tratamento imediato é feito ali mesmo, na urgência:
Imobilização: A maioria das fraturas é tratada inicialmente com uma imobilização gessada (tala ou gesso circular). O gesso alivia a dor, protege o membro e mantém os fragmentos ósseos alinhados para que a consolidação (a "cura" do osso) possa começar.
Redução Incruenta: Se a fratura estiver muito desalinhada, o ortopedista pode realizar uma "redução", que é o procedimento de colocar os fragmentos ósseos de volta no lugar. Isso pode ser feito sem cirurgia (redução incruenta), geralmente com o paciente sedado para não sentir dor, antes de aplicar o gesso definitivo.
Medicação para Dor: Analgésicos potentes são administrados para controlar a dor aguda.
3. Encaminhamento para o Especialista
Após o atendimento inicial, o caminho do paciente depende do tipo de fratura:
Fraturas de Tratamento Conservador (sem cirurgia): A maioria das fraturas (como as de punho, tornozelo ou braço sem grande desvio) é tratada apenas com gesso. O paciente recebe alta da urgência com orientação para agendar um retorno no ambulatório de ortopedia do SUS. Nesses retornos, o ortopedista irá acompanhar a consolidação da fratura com novos Raios-X e determinar o tempo de imobilização.
Fraturas de Tratamento Cirúrgico: Fraturas expostas, fraturas com grande desvio, fraturas articulares ou fraturas instáveis (como a de fêmur) necessitam de cirurgia. Nesses casos, o paciente fica internado no hospital e aguarda pelo procedimento cirúrgico.
Tratamento Cirúrgico de Fraturas no SUS
O SUS realiza uma vasta gama de cirurgias para fraturas, utilizando materiais modernos e técnicas avançadas. O objetivo da cirurgia é alinhar perfeitamente os fragmentos ósseos e fixá-los de forma estável, o que permite uma mobilização mais precoce e uma recuperação funcional melhor.
Os métodos mais comuns são:
Fixação com Placas e Parafusos: Usada em fraturas de ossos longos, como rádio, úmero ou tíbia.
Hastes Intramedulares: Uma haste metálica é inserida por dentro do canal do osso. É o tratamento padrão para fraturas de fêmur e tíbia.
Fixadores Externos: Usados principalmente em fraturas expostas graves. Uma estrutura metálica fica do lado de fora do membro, conectada ao osso por pinos. Isso estabiliza a fratura enquanto a ferida cicatriza, diminuindo o risco de infecção.
Como o Osso se Regenera? Entendendo a Consolidação Óssea
O osso é um tecido vivo e dinâmico, com uma capacidade incrível de se regenerar. O processo de cura de uma fratura, chamado de consolidação óssea, ocorre em várias fases:
Fase Inflamatória (primeiros dias): Logo após a fratura, forma-se um grande hematoma no local. O corpo inicia uma resposta inflamatória, que é essencial para "limpar" a área e trazer as células de reparo.
Formação do Calo Mole (2-3 semanas): As células começam a produzir uma matriz de cartilagem e tecido fibroso que une os fragmentos ósseos. É como uma "ponte" inicial, ainda frágil, chamada de calo mole.
Formação do Calo Duro (4-12 semanas): O calo mole é gradualmente substituído por osso novo, formando o calo duro. Nesta fase, a fratura já está mais estável, e em muitos casos, o gesso pode ser retirado.
Remodelação Óssea (meses a anos): O calo duro é lentamente remodelado, e o osso volta a ter uma forma e uma estrutura muito próximas do original. A atividade física orientada pela fisioterapia é fundamental nesta fase para estimular a remodelação correta.
O tempo total de consolidação varia muito dependendo da idade do paciente, do osso fraturado, do tipo de fratura e da presença de outras doenças.
Um Desafio de Saúde Pública: Fraturas em Idosos e a Osteoporose
Um capítulo à parte e de extrema importância no SUS é o atendimento às fraturas em idosos, especialmente a fratura de fêmur. Com o envelhecimento, os ossos tendem a perder massa e se tornar mais frágeis, uma condição chamada osteoporose. Isso torna os idosos muito mais suscetíveis a fraturas, mesmo em quedas de baixo impacto.
A fratura de fêmur em um idoso é considerada uma emergência grave, não apenas pela fratura em si, mas pelo alto risco de complicações (como pneumonia, trombose e infecções) decorrentes da imobilidade. Por isso, o SUS prioriza o tratamento cirúrgico para esses pacientes, idealmente dentro de 48 horas após a fratura.
O tratamento da osteoporose também é uma prioridade na Atenção Primária. O médico da UBS pode solicitar o exame de densitometria óssea para diagnosticar a condição e iniciar o tratamento, que inclui:
Suplementação de Cálcio e Vitamina D: Essenciais para a saúde óssea e disponíveis no SUS.
Medicamentos Específicos (como os bisfosfonatos): Que ajudam a reduzir a perda de massa óssea.
Estímulo à Atividade Física: Exercícios de baixo impacto e fortalecimento muscular ajudam a manter a densidade óssea.
A Importância da Nutrição na Recuperação
Uma boa nutrição desempenha um papel vital na recuperação de uma fratura. Para construir osso novo, o corpo precisa de matéria-prima. É fundamental garantir uma dieta rica em:
Cálcio: Encontrado em leite e derivados, vegetais de folhas escuras (couve, brócolis) e gergelim.
Vitamina D: Essencial para a absorção do cálcio. A principal fonte é a exposição solar (15 a 20 minutos por dia, fora dos horários de pico), mas também pode ser encontrada em peixes gordurosos e gema de ovo.
Proteínas: São os "tijolos" para a construção de todos os tecidos, incluindo a matriz óssea. Encontradas em carnes, ovos, leguminosas (feijão, lentilha) e laticínios.
Vitamina C: Importante para a produção de colágeno, uma proteína fundamental do calo ósseo. Presente em frutas cítricas (laranja, limão), acerola, caju e pimentão.
O nutricionista, que também pode fazer parte da equipe do NASF, pode fornecer orientações valiosas para garantir que o paciente tenha todos os nutrientes necessários para uma consolidação óssea rápida e eficaz.
A Fase de Reabilitação: Fisioterapia pelo SUS
Após a cirurgia ou a retirada do gesso, o osso está consolidado, mas o trabalho ainda não acabou. O período de imobilização causa rigidez nas articulações, perda de força muscular (atrofia) e dificuldade de movimento. É aqui que entra a fisioterapia, um serviço essencial oferecido pelo SUS.
O encaminhamento para a fisioterapia é feito pelo ortopedista. O tratamento pode ocorrer em clínicas conveniadas, centros de reabilitação ou com as equipes do NASF. O objetivo da fisioterapia é:
Recuperar a amplitude de movimento da articulação.
Restaurar a força muscular.
Melhorar o equilíbrio e a coordenação.
Treinar novamente a marcha (o andar) em fraturas de membros inferiores.
Devolver a função para que o paciente possa retornar às suas atividades diárias, ao trabalho e ao lazer.
A adesão e a dedicação do paciente à fisioterapia são cruciais para o sucesso do tratamento. É um trabalho em equipe entre o paciente e o fisioterapeuta para garantir uma recuperação completa e sem sequelas.
Em resumo, desde a chamada para o SAMU, passando pelo atendimento na UPA, a consulta com o ortopedista, a cirurgia e a reabilitação, o SUS oferece uma linha de cuidado integral e gratuita para o tratamento de fraturas. Em um momento de dor e incerteza, saber que existe essa estrutura de apoio faz toda a diferença.
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