Torceu o Tornozelo? O Guia Completo do SUS para Tratamento e Fisioterapia de Entorses

Entenda os graus de entorse, como o SUS atua no diagnóstico, imobilização e, principalmente, na reabilitação com fisioterapia para uma recuperação completa.

1/2/20267 min read

Entorses: Tratamento e Reabilitação pelo SUS

Uma pisada em falso, uma virada brusca durante uma atividade física ou uma simples caminhada em um terreno irregular. Quem nunca passou por uma situação que resultou em uma entorse, popularmente conhecida como "torção"? A entorse de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas mais comuns, mas ela também pode ocorrer em outras articulações, como joelhos, punhos e dedos.

Entender como agir nos primeiros momentos e como o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um caminho completo para o tratamento e a reabilitação é fundamental para uma recuperação rápida e para evitar complicações futuras. Este guia, com uma linguagem clara e humanizada, vai explicar o que é uma entorse, os diferentes graus de lesão, como o SUS atua desde o primeiro atendimento até a fisioterapia, e o que você pode fazer para se recuperar bem.

O Que é uma Entorse e Quais são os Graus da Lesão?

Uma entorse é uma lesão que afeta os ligamentos, que são as fortes faixas de tecido que conectam um osso ao outro, dando estabilidade às articulações. Quando uma articulação é forçada a se mover para uma posição não natural, os ligamentos podem ser esticados ou até mesmo rompidos.

As entorses são classificadas em três graus, dependendo da gravidade da lesão nos ligamentos:

  • Grau 1 (Leve): Ocorre um estiramento dos ligamentos, sem ruptura. Os sintomas são dor leve, um pequeno inchaço e pouca ou nenhuma dificuldade para movimentar a articulação.

  • Grau 2 (Moderada): Há uma ruptura parcial dos ligamentos. A dor é mais intensa, o inchaço é evidente, pode haver um hematoma (mancha roxa) e a pessoa sente dificuldade e instabilidade ao tentar usar a articulação.

  • Grau 3 (Grave): Ocorre a ruptura total de um ou mais ligamentos. A dor é muito forte, o inchaço é grande, o hematoma é extenso e a pessoa não consegue apoiar o peso ou movimentar a articulação devido à dor e à instabilidade.

O Atendimento Imediato no SUS: UPA e Pronto-Socorro

Ao sofrer uma entorse, especialmente se a dor for intensa e houver dificuldade para se mover, o local correto para buscar o primeiro atendimento no SUS é uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou o pronto-socorro de um hospital.

1. Diagnóstico e Primeiros Cuidados

No serviço de urgência, a equipe de saúde irá:

  • Avaliar a Lesão: O médico fará um exame físico para avaliar a dor, o inchaço, a amplitude de movimento e a estabilidade da articulação.

  • Solicitar Raio-X (se necessário): O principal objetivo do Raio-X em uma entorse aguda não é ver os ligamentos (que não aparecem nesse exame), mas sim descartar uma fratura. É muito importante saber se, além da lesão nos ligamentos, algum osso foi quebrado.

  • Realizar o Tratamento Inicial: O tratamento inicial foca em aliviar a dor e o inchaço, seguindo o método PRICE, que também é usado para contusões:

    • Proteção, Repouso, Gelo (Ice), Compressão e Elevação.

2. Imobilização: Quando é Necessária?

Dependendo da gravidade da entorse, o médico pode optar por imobilizar a articulação:

  • Entorses Leves (Grau 1): Geralmente não necessitam de imobilização. O repouso relativo e o uso de uma faixa elástica para compressão podem ser suficientes.

  • Entorses Moderadas (Grau 2): Pode ser indicada uma tala gessada ou, mais comumente, uma bota imobilizadora (robofoot). A imobilização ajuda a proteger os ligamentos parcialmente rompidos enquanto eles cicatrizam.

  • Entorses Graves (Grau 3): A imobilização com gesso ou bota é quase sempre necessária para garantir a estabilidade da articulação e permitir a cicatrização dos ligamentos rompidos.

O tempo de imobilização varia de alguns dias a várias semanas, dependendo da gravidade da lesão.

A Continuidade do Cuidado na UBS e o Encaminhamento para a Fisioterapia

Após o atendimento inicial na urgência, o acompanhamento da recuperação é feito na Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico de família irá reavaliar a lesão, fornecer atestado (se necessário) e, o mais importante, fazer o encaminhamento para a Fisioterapia.

A Fisioterapia no SUS: O Caminho para a Recuperação Completa

A fisioterapia é a parte mais crucial do tratamento da entorse. Um tratamento inadequado ou a falta de reabilitação é a principal causa de entorses de repetição e de instabilidade crônica, que pode levar a problemas mais graves no futuro, como a artrose.

O tratamento fisioterapêutico no SUS, realizado nos Centros de Reabilitação (CER) ou, em alguns casos, na própria UBS (com o apoio do NASF), é dividido em fases:

  1. Fase 1: Controle da Dor e do Inchaço: O fisioterapeuta utiliza recursos como crioterapia (gelo), ultrassom terapêutico e TENS (eletroestimulação) para diminuir a dor e a inflamação.

  2. Fase 2: Recuperação do Movimento: São iniciados exercícios leves para restaurar a amplitude de movimento da articulação, que pode ficar rígida após a imobilização.

  3. Fase 3: Fortalecimento Muscular: Esta fase é fundamental. São realizados exercícios para fortalecer os músculos que dão suporte à articulação. No caso do tornozelo, por exemplo, fortalecer os músculos da perna ajuda a proteger os ligamentos.

  4. Fase 4: Treino de Propriocepção (Equilíbrio): A propriocepção é a capacidade do corpo de reconhecer a sua posição no espaço. Após uma entorse, essa capacidade fica prejudicada. O fisioterapeuta utiliza exercícios em pranchas de equilíbrio e superfícies instáveis para "retreinar" a articulação e o cérebro, prevenindo novas torções.

Cirurgia para Entorse: Quando o SUS Indica?

A grande maioria das entorses, mesmo as de Grau 3, são tratadas com sucesso de forma conservadora (sem cirurgia). A cirurgia é reservada para casos específicos:

  • Instabilidade Crônica: Quando, mesmo após um tratamento fisioterapêutico bem feito, o paciente continua com a sensação de que a articulação "sai do lugar" ou sofre entorses de repetição.

  • Lesões Associadas: Quando, além da ruptura dos ligamentos, há fraturas ou lesões na cartilagem da articulação.

  • Atletas de Alto Rendimento: Em alguns casos, para garantir um retorno mais rápido e seguro ao esporte, a cirurgia para reparar os ligamentos pode ser considerada.

O encaminhamento para o ortopedista, o especialista que avalia a necessidade de cirurgia, é feito pelo médico da UBS através do sistema de regulação do SUS.

Prevenção de Entorses: Um Passo Importante

Melhor do que tratar uma entorse é evitar que ela aconteça. A prevenção é um pilar do cuidado em saúde promovido pelo SUS, e algumas medidas simples podem reduzir significativamente o risco de lesões:

  • Fortalecimento Muscular: Manter os músculos ao redor das articulações fortes e equilibrados é a melhor proteção para os ligamentos. A prática regular de atividades físicas, orientada por profissionais de educação física (muitas vezes disponíveis em ações do NASF ou academias da saúde), é fundamental.

  • Uso de Calçados Adequados: Utilizar calçados apropriados para cada atividade (tênis para corrida, chuteira para futebol) e evitar sapatos com solado gasto ou que não ofereçam bom suporte pode prevenir muitas torções.

  • Cuidado com Terrenos Irregulares: Prestar atenção onde pisa, especialmente em calçadas esburacadas, trilhas ou terrenos acidentados, é uma medida simples e eficaz.

  • Aquecimento: Realizar um aquecimento adequado antes de qualquer atividade física prepara os músculos e ligamentos para o esforço, tornando-os menos suscetíveis a lesões.

O Papel das Órteses: Estabilizadores e Protetores

As órteses, como as tornozeleiras e joelheiras, são dispositivos que podem ser usados para dar suporte e estabilidade a uma articulação. No contexto da entorse, elas podem ser usadas em duas situações principais:

  1. Durante o Tratamento: Após a fase de imobilização com bota ou gesso, o médico ou fisioterapeuta pode indicar o uso de uma órtese estabilizadora para proteger a articulação durante o retorno gradual às atividades, enquanto a musculatura ainda está sendo fortalecida.

  2. Para Prevenção: Pessoas com histórico de entorses de repetição ou com instabilidade crônica podem se beneficiar do uso de órteses durante a prática de atividades físicas de maior impacto, como forma de prevenir novas lesões.

É crucial que o uso de qualquer tipo de órtese seja orientado por um profissional de saúde. O uso inadequado ou por tempo prolongado sem necessidade pode levar ao enfraquecimento da musculatura, criando um efeito contrário ao desejado.

A Importância da Adesão ao Tratamento Fisioterapêutico

Um dos maiores desafios no tratamento da entorse é a adesão do paciente à fisioterapia. Muitas vezes, assim que a dor e o inchaço diminuem, a pessoa abandona o tratamento, acreditando já estar recuperada. Isso é um erro grave.

Atenção: A ausência de dor não significa que a articulação está totalmente recuperada. A cicatrização dos ligamentos e, principalmente, a recuperação da força muscular e da propriocepção (equilíbrio) são processos mais longos.

Abandonar a fisioterapia no meio do caminho é o principal fator de risco para:

  • Recorrência da Lesão: A articulação continua instável e suscetível a novas entorses, muitas vezes mais graves que a primeira.

  • Dor Crônica: A cicatrização inadequada e a instabilidade podem levar a um quadro de dor persistente.

  • Artrose Precoce: A instabilidade crônica sobrecarrega a cartilagem da articulação, acelerando seu desgaste e levando ao desenvolvimento de artrose no futuro.

O SUS oferece a estrutura para uma reabilitação completa. Comprometer-se com o tratamento fisioterapêutico, realizando todos os exercícios propostos e comparecendo a todas as sessões, é a responsabilidade do paciente para garantir uma recuperação plena e duradoura.

Tabela Resumo: Graus de Entorse e Tratamento no SUS

Grau 1 (Leve)

  • Lesão do Ligamento: Estiramento

  • Sintomas Comuns: Dor leve, pouco inchaço.

  • Tratamento Típico no SUS: Repouso, gelo, compressão, elevação (PRICE). Geralmente não precisa de imobilização.

Grau 2 (Moderada)

  • Lesão do Ligamento: Ruptura Parcial

  • Sintomas Comuns: Dor moderada, inchaço, hematoma, alguma instabilidade.

  • Tratamento Típico no SUS: Método PRICE, imobilização com bota ou tala por algumas semanas, seguido de Fisioterapia.

Grau 3 (Grave)

  • Lesão do Ligamento: Ruptura Total

  • Sintomas Comuns: Dor intensa, grande inchaço e hematoma, incapacidade de usar a articulação.

  • Tratamento Típico no SUS: Imobilização com gesso ou bota, Fisioterapia intensiva. Avaliação por ortopedista para considerar cirurgia.

Uma entorse bem tratada tem uma excelente chance de recuperação completa. Seguir as orientações da equipe de saúde do SUS, respeitar o período de repouso e, principalmente, se dedicar ao tratamento fisioterapêutico são os segredos para voltar às suas atividades diárias sem dor e com segurança.