Constipação Intestinal: Diagnóstico, Tratamento com Laxativos (PEG, Lactulose) e Fluxo de Atendimento Garantidos pelo SUS

Saiba como o SUS trata a prisão de ventre em adultos e crianças, o acesso a medicamentos e as mudanças de estilo de vida essenciais para a saúde intestinal.

1/3/20265 min read

Constipação (Prisão de Ventre): Tratamento, Laxativos e Acesso a Cuidados pelo SUS

A Constipação Intestinal, popularmente conhecida como prisão de ventre, é um distúrbio gastrointestinal comum, caracterizado pela dificuldade persistente em evacuar, fezes endurecidas e sensação de esvaziamento incompleto. Embora frequentemente associada a desconforto e dor abdominal, a constipação crônica pode impactar significativamente a qualidade de vida e, em casos mais graves, levar a complicações como hemorroidas e fissuras anais. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece um protocolo de tratamento que prioriza a mudança de hábitos de vida e o acesso a medicamentos laxativos essenciais, garantindo o manejo adequado da condição desde a Atenção Primária.

Este guia detalhado explora as causas, os critérios de diagnóstico, as estratégias de tratamento não farmacológico e o acesso aos principais laxativos fornecidos pelo SUS, com o compromisso de entregar um conteúdo completo e didático, focado na prevenção e no manejo eficaz da constipação em adultos e crianças.

1. O que é Constipação e Como é Diagnosticada

A constipação não é apenas a ausência de evacuações diárias, mas sim um conjunto de sintomas que indicam uma disfunção no trânsito intestinal.

Critérios de Roma IV:

O diagnóstico de constipação funcional crônica é baseado nos Critérios de Roma IV, que exigem a presença de pelo menos dois dos seguintes sintomas por um período mínimo de três meses:

  • Esforço excessivo para evacuar em mais de 25% das vezes.

  • Fezes duras ou em bolinhas (tipo 1 ou 2 na Escala de Bristol) em mais de 25% das vezes.

  • Sensação de evacuação incompleta em mais de 25% das vezes.

  • Sensação de obstrução/bloqueio anorretal em mais de 25% das vezes.

  • Manobras manuais para facilitar a evacuação em mais de 25% das vezes.

  • Menos de três evacuações espontâneas completas por semana.

Tipos de Constipação:

  • Constipação Funcional (Primária): É a mais comum, não associada a uma doença orgânica específica. Está ligada a fatores dietéticos (baixa ingestão de fibras e água), sedentarismo e hábitos de vida.

  • Constipação Secundária: Causada por outras condições médicas (como hipotireoidismo, diabetes, doenças neurológicas) ou pelo uso de certos medicamentos (como alguns antidepressivos e analgésicos opióides).

2. O Tratamento Não Farmacológico: A Base do Manejo pelo SUS

O tratamento da constipação no SUS começa na Atenção Primária (UBS/USF) e tem como foco principal a modificação do estilo de vida.

Dieta Rica em Fibras:

O aumento da ingestão de fibras é a intervenção mais importante. As fibras aumentam o volume das fezes e retêm água, tornando-as mais macias e fáceis de serem eliminadas.

  • Fontes de Fibras: Frutas (mamão, ameixa, laranja com bagaço), vegetais (folhas verdes, brócolis), leguminosas (feijão, lentilha) e grãos integrais.

  • Recomendação: A ingestão diária recomendada para adultos é de 25 a 35 gramas de fibra.

Hidratação Adequada:

A fibra só é eficaz se houver água suficiente para hidratá-la. A baixa ingestão de líquidos é uma das principais causas de fezes endurecidas.

  • Recomendação: Ingerir pelo menos 2 litros de água por dia.

Atividade Física e Treinamento Intestinal:

O exercício físico estimula o movimento intestinal (peristaltismo). Além disso, o SUS orienta o Treinamento Intestinal, que consiste em:

  • Rotina: Tentar evacuar sempre no mesmo horário, preferencialmente após o café da manhã, quando o reflexo gastrocólico está mais ativo.

  • Postura: Utilizar um apoio para os pés (banquinho) para elevar os joelhos, simulando a posição de cócoras, o que relaxa o músculo puborretal e facilita a passagem das fezes.

3. Laxativos Essenciais Fornecidos pelo SUS

Quando as medidas não farmacológicas não são suficientes, o SUS disponibiliza diversos tipos de laxativos, priorizando aqueles de uso seguro e eficaz a longo prazo.

Laxativos Osmóticos:

São a primeira escolha para o tratamento farmacológico da constipação crônica, pois agem atraindo água para o intestino, amolecendo as fezes.

  • Polietilenoglicol (PEG): Considerado o laxativo mais seguro e eficaz para uso crônico, inclusive em crianças. É um polímero que não é absorvido e tem poucos efeitos colaterais.

  • Lactulose: Um açúcar não absorvível que também atrai água para o intestino.

  • Hidróxido de Magnésio (Leite de Magnésia): Laxativo salino que atua por osmose.

Laxativos Formadores de Massa:

Aumentam o volume das fezes, estimulando o peristaltismo.

  • Psyllium: Fibra solúvel que, quando misturada com água, forma um gel. É importante que o paciente ingira bastante água ao usar este tipo de laxativo.

Laxativos Estimulantes:

Devem ser usados com cautela e por curtos períodos, pois estimulam diretamente os nervos da parede intestinal.

  • Bisacodil e Sene: Indicados para constipação aguda ou para casos refratários, mas o uso prolongado pode causar dependência e dano ao intestino.

Óleo Mineral:

Disponível na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), mas seu uso é desencorajado para constipação crônica devido ao risco de pneumonia lipoídica (por aspiração) e interferência na absorção de vitaminas lipossolúveis.

4. Manejo da Constipação em Crianças pelo SUS

A constipação infantil é uma queixa frequente e requer um manejo diferenciado, muitas vezes associado à retenção fecal por medo de dor.

Desimpactação Fecal:

Em casos de acúmulo de fezes (fecaloma), o primeiro passo é a desimpactação, que pode ser feita com doses altas de PEG ou, em casos extremos, com enemas.

Tratamento de Manutenção:

Após a desimpactação, o tratamento de manutenção é feito com PEG ou Lactulose por um período prolongado (meses), juntamente com a educação sobre dieta e o treinamento intestinal. O objetivo é garantir que a criança evacue fezes macias e sem dor, quebrando o ciclo de retenção.

5. Quando a Constipação Exige Atendimento Especializado

A maioria dos casos é resolvida na Atenção Primária, mas a presença de Sinais de Alerta (Red Flags) exige o encaminhamento imediato para o especialista (Gastroenterologista ou Coloproctologista) na Atenção Secundária ou Terciária do SUS.

Sinais de Alerta (Red Flags):

  • Sangue nas Fezes: Pode indicar hemorroidas, fissuras ou, mais raramente, câncer colorretal.

  • Perda de Peso Inexplicada:

  • Anemia por Deficiência de Ferro:

  • Início Súbito de Constipação em Idosos:

  • Dor Abdominal Intensa e Distensão: Pode indicar obstrução intestinal.

  • Constipação Refratária: Que não melhora após 3 meses de tratamento adequado na Atenção Primária.

O SUS garante o acesso a exames diagnósticos (colonoscopia, manometria anorretal) e ao tratamento cirúrgico, se necessário, para as causas secundárias e complicações da constipação.