Epilepsia: Medicamentos e Acompanhamento pelo SUS: Guia Completo
Saiba como acessar o diagnóstico, os medicamentos de alto custo e o tratamento especializado para Epilepsia gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
5/18/20257 min read


Epilepsia: Medicamentos e Acompanhamento pelo SUS: Guia Completo
A Epilepsia é uma das condições neurológicas crônicas mais comuns, caracterizada pela predisposição duradoura a gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais dessa condição. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha um papel fundamental no manejo da doença, garantindo o acesso integral ao diagnóstico, ao acompanhamento com neurologistas e, crucialmente, ao fornecimento gratuito dos Medicamentos Antiepilépticos (DAEs), incluindo os de alto custo, por meio do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF).
Este guia detalhado tem como objetivo esclarecer o que é a epilepsia, como o diagnóstico é realizado na rede pública, quais são os principais medicamentos fornecidos pelo SUS e, principalmente, apresentar um passo a passo prático para que o paciente ou seu responsável possa acessar o tratamento e o acompanhamento especializado de forma gratuita e eficiente.
O que é Epilepsia e Tipos de Crises
A epilepsia não é uma doença mental, mas sim um distúrbio da atividade cerebral, onde grupos de neurônios disparam de forma anormal e excessiva, causando as crises epilépticas. Uma única crise não define a epilepsia; o diagnóstico é dado após duas ou mais crises não provocadas (ou uma crise não provocada e a probabilidade de novas crises).
Classificação das Crises Epilépticas
As crises são classificadas de acordo com o local de início no cérebro:
Crises de Início Focal: Começam em uma área específica de um hemisfério cerebral. O paciente pode ou não ter a consciência preservada. Exemplos incluem movimentos involuntários em um membro ou sensações estranhas.
Crises de Início Generalizado: Envolvem redes neuronais em ambos os hemisférios cerebrais desde o início. O tipo mais conhecido é a crise tônico-clônica (antigamente chamada de "grande mal"), com perda de consciência, rigidez (fase tônica) e contrações rítmicas (fase clônica).
Crises de Início Desconhecido: Quando não é possível determinar se o início foi focal ou generalizado.
Diagnóstico de Epilepsia pelo SUS
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história detalhada das crises. No entanto, o SUS oferece exames complementares para confirmar o diagnóstico, classificar o tipo de epilepsia e identificar a causa:
Consulta com Neurologista: O primeiro passo é o encaminhamento da Unidade Básica de Saúde (UBS) para um neurologista, o especialista responsável pelo diagnóstico e tratamento.
Eletroencefalograma (EEG): É o exame mais importante, que registra a atividade elétrica do cérebro. O EEG pode mostrar padrões de atividade anormal (descargas epileptiformes) mesmo entre as crises. O SUS cobre o EEG de rotina e, em centros especializados, o EEG prolongado ou de vídeo-EEG.
Neuroimagem (Ressonância Magnética - RM): A RM é crucial para identificar lesões estruturais no cérebro (como tumores, cicatrizes, malformações) que podem ser a causa da epilepsia. O SUS garante o acesso a exames de RM em centros de referência.
Exames de Sangue: Utilizados para descartar outras causas de convulsões (como distúrbios metabólicos ou infecções).
Tratamento Farmacológico: Medicamentos para Epilepsia no SUS
O tratamento principal da epilepsia é feito com Drogas Antiepilépticas (DAEs), que visam controlar as crises. O SUS fornece a maioria dos medicamentos essenciais e de alto custo, conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Epilepsia.
Medicamentos de Dispensação Comum (Farmácia Básica)
São fornecidos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Farmácias Municipais:
Fenobarbital
Carbamazepina
Fenitoína
Ácido Valproico
Medicamentos de Alto Custo (Componente Especializado da Assistência Farmacêutica - CEAF)
São fornecidos em Farmácias de Alto Custo estaduais ou municipais, mediante apresentação de laudo médico e preenchimento de formulários específicos (LME - Laudo para Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamentos):
Lamotrigina
Topiramato
Gabapentina
Levetiracetam
Oxcarbazepina
Clonazepam
Outros medicamentos de última geração, conforme a atualização do PCDT.
O acesso a esses medicamentos é um direito garantido pelo SUS, e o processo exige o acompanhamento regular com o neurologista para a renovação da receita e do LME.
Acompanhamento Multidisciplinar e Especializado
O tratamento da epilepsia é mais eficaz quando envolve uma equipe multidisciplinar, especialmente para casos refratários (difíceis de controlar) ou com comorbidades:
Neurologista Especializado: Em casos complexos, o paciente é encaminhado para um neurologista com subespecialidade em Epileptologia, geralmente em hospitais universitários ou centros de referência.
Psicólogo e Psiquiatra: A epilepsia está frequentemente associada a transtornos de humor (depressão, ansiedade) e dificuldades de adaptação social. O SUS oferece acompanhamento psicológico e psiquiátrico nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e na rede ambulatorial especializada.
Assistente Social: Auxilia o paciente e a família na obtenção de benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou o auxílio-doença, quando a epilepsia causa incapacidade laboral.
Cirurgia de Epilepsia pelo SUS
Para cerca de 30% dos pacientes que não respondem a dois ou mais medicamentos (epilepsia refratária), a cirurgia pode ser uma opção curativa ou paliativa. O SUS cobre integralmente a avaliação pré-cirúrgica e o procedimento:
Avaliação Pré-Cirúrgica: É realizada em Centros de Referência de Cirurgia de Epilepsia (geralmente CACONs ou hospitais de alta complexidade), envolvendo exames avançados como Vídeo-EEG, SPECT e Mapeamento Cerebral.
Procedimento Cirúrgico: O tipo de cirurgia depende da localização do foco epiléptico. A mais comum é a ressecção da área cerebral afetada (por exemplo, lobectomia temporal).
O encaminhamento para a avaliação cirúrgica é feito pelo neurologista assistente, seguindo os critérios rigorosos do Ministério da Saúde.
Impacto na Qualidade de Vida e a Importância da Educação
A epilepsia vai além das crises. O impacto na qualidade de vida é significativo, afetando a educação, o emprego, as relações sociais e a saúde mental. O SUS e as políticas públicas reconhecem a necessidade de um cuidado integral:
Estigma e Preconceito: A falta de informação gera estigma e preconceito. A educação sobre a epilepsia é vital para a inclusão social e profissional dos pacientes. O SUS promove campanhas de conscientização.
Educação e Emprego: O controle das crises é fundamental para a manutenção da vida escolar e profissional. O paciente tem direito a adaptações razoáveis no ambiente de trabalho e estudo, e o acompanhamento psicossocial do SUS pode auxiliar nesse processo.
Primeiros Socorros: É crucial que a população saiba como agir durante uma crise epiléptica (proteger a cabeça, afastar objetos, não tentar segurar a língua). O SUS, por meio da atenção primária, pode oferecer orientações sobre primeiros socorros para familiares e educadores.
Prevenção da SUDEP (Morte Súbita Inesperada na Epilepsia)
A SUDEP (Sudden Unexpected Death in Epilepsy) é a complicação mais grave da epilepsia e a principal causa de morte prematura em pessoas com a doença. O SUS tem um papel crucial na prevenção, que se baseia em:
Controle Máximo das Crises: O principal fator de risco para SUDEP são as crises tônico-clônicas generalizadas não controladas. O acesso contínuo e gratuito aos DAEs de alto custo pelo SUS é a medida preventiva mais importante.
Adesão ao Tratamento: O acompanhamento regular e a renovação do LME garantem que o paciente não interrompa a medicação, o que aumenta o risco de crises e, consequentemente, de SUDEP.
Educação e Conscientização: O neurologista deve informar o paciente e a família sobre o risco de SUDEP e as medidas de segurança, como evitar dormir de bruços e, em casos de alto risco, o uso de dispositivos de monitoramento.
Passo a Passo: Como Acessar o Tratamento de Epilepsia pelo SUS
O caminho para o tratamento de epilepsia no SUS é estruturado para garantir o acesso rápido e especializado:
Primeira Consulta na UBS:
Procure a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O médico da família ou clínico geral fará a avaliação inicial e, com a suspeita de epilepsia, emitirá o encaminhamento para o neurologista.
Encaminhamento para o Neurologista:
O encaminhamento é regulado pela Central de Regulação do município/estado. O paciente será agendado para a primeira consulta com o especialista na rede ambulatorial ou em um hospital de referência.
Diagnóstico e Prescrição:
O neurologista solicitará os exames necessários (EEG, RM) e, após o diagnóstico, prescreverá o medicamento adequado. Se for um medicamento de alto custo, ele preencherá o Laudo para Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamentos (LME).
Acesso aos Medicamentos:
Com a receita e o LME, o paciente deve se dirigir à Farmácia de Alto Custo (CEAF) para iniciar a retirada dos medicamentos. A documentação inclui RG, CPF, Cartão SUS, comprovante de residência, receita e LME preenchido e assinado pelo médico.
Acompanhamento Contínuo:
O acompanhamento com o neurologista deve ser regular (geralmente a cada 3 ou 6 meses) para monitorar a eficácia do tratamento, ajustar a dose e renovar o LME para a continuidade do fornecimento dos medicamentos.
Busca por Outros Serviços:
Se houver necessidade de apoio psicológico, social ou avaliação cirúrgica, o neurologista fará o encaminhamento para os serviços especializados (CAPS, Assistência Social, Centros de Cirurgia de Epilepsia).
Direitos do Paciente com Epilepsia no Brasil
O paciente com epilepsia tem direitos assegurados por lei, especialmente quando a condição gera incapacidade:
Benefício de Prestação Continuada (BPC): Para pessoas com deficiência (incluindo epilepsia grave e refratária) que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família.
Auxílio-Doença e Aposentadoria por Invalidez: Para trabalhadores que contribuem para o INSS e que se tornam temporária ou permanentemente incapazes para o trabalho devido à epilepsia.
Passe Livre Intermunicipal/Interestadual: Em alguns estados e municípios, o paciente pode ter direito à gratuidade no transporte público.
Isenção de Impostos: Em casos de deficiência física grave associada, pode haver isenção de IPI e ICMS na compra de veículos adaptados.
O Futuro do Tratamento e a Pesquisa no SUS
O SUS, por meio de seus centros de pesquisa e hospitais universitários, participa ativamente de estudos sobre novas DAEs e técnicas cirúrgicas. A tendência é a personalização do tratamento, com a identificação de biomarcadores genéticos que ajudem a prever a resposta a medicamentos específicos, otimizando o cuidado e reduzindo os efeitos colaterais. A telemedicina também tem se mostrado uma ferramenta valiosa para o acompanhamento de pacientes em regiões remotas.
Artigos Relacionados
Câncer de Pulmão pelo SUS: Diagnóstico, Tratamento e Acesso Gratuito
Broncoscopia pelo SUS: Indicações, Preparo e Como Agendar o Exame
Espirometria pelo SUS: Indicações, Preparo e Como Agendar o Exame de Função Pulmonar
Referências
Saúde para todos
Tudo sobre o Sistema Único de Saúde Brasileiro.
Quem somos
© 2024 Viva o SUS. All rights reserved.
Institucional