Colelitíase: Como o SUS Garante o Diagnóstico e a Cirurgia de Vesícula (Colecistectomia)
Guia completo sobre a cirurgia de vesícula (colecistectomia) pelo SUS, incluindo indicações para pacientes sintomáticos e assintomáticos, e o fluxo de encaminhamento no sistema público de saúde.
1/1/20268 min read


Cálculos na Vesícula: Diagnóstico, Indicação e Fluxo para Cirurgia pelo SUS
A vesícula biliar, um pequeno órgão em forma de pera localizado sob o fígado, tem a função vital de armazenar e concentrar a bile, um líquido que auxilia na digestão de gorduras. Quando essa bile se desequilibra, podem se formar depósitos sólidos, conhecidos popularmente como "pedras na vesícula" ou, clinicamente, Colelitíase. Esta é uma condição extremamente comum, e a cirurgia para a sua remoção, a Colecistectomia, é um dos procedimentos mais realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, demonstrando a relevância do tema para a saúde pública nacional.
O Que São os Cálculos na Vesícula (Colelitíase)?
A Colelitíase é a presença de cálculos (pedras) dentro da vesícula biliar. Esses cálculos são formados principalmente por colesterol, pigmentos biliares ou uma mistura de ambos. A formação ocorre quando há um desequilíbrio na composição da bile, levando à precipitação e cristalização dessas substâncias.
Fatores de Risco
Embora a causa exata seja multifatorial, alguns fatores aumentam significativamente o risco de desenvolver colelitíase:
Gênero: Mulheres são mais propensas, especialmente aquelas que tiveram múltiplas gestações ou fazem uso de terapia de reposição hormonal.
Idade: A prevalência aumenta com a idade, sendo mais comum após os 40 anos.
Obesidade e Perda Rápida de Peso: O excesso de peso e dietas muito restritivas que levam à perda de peso acelerada alteram a composição da bile.
Dieta: Dietas ricas em gorduras e pobres em fibras.
Histórico Familiar: Pessoas com parentes de primeiro grau que tiveram colelitíase têm maior risco.
Doenças Crônicas: Diabetes, cirrose hepática e algumas doenças do sangue (como a anemia falciforme) são fatores de risco.
Sintomas e Complicações
Muitas pessoas com cálculos na vesícula são assintomáticas (não sentem nada), e a descoberta é um achado casual em exames de imagem. No entanto, quando os cálculos causam obstrução ou inflamação, os sintomas surgem, sendo o mais característico a cólica biliar.
A Dor da Cólica Biliar
A cólica biliar é uma dor intensa e intermitente, localizada tipicamente na parte superior direita do abdômen (hipocôndrio direito) ou na região do estômago (epigástrio), que pode irradiar para as costas ou ombro direito. Essa dor geralmente é desencadeada após a ingestão de alimentos gordurosos, pois a vesícula se contrai para liberar a bile, e o cálculo obstrui a passagem.
Complicações
A colelitíase pode evoluir para quadros graves que exigem tratamento de urgência:
Colecistite Aguda: Inflamação da vesícula biliar causada pela obstrução prolongada do ducto cístico. Causa dor intensa e contínua, febre e, muitas vezes, requer cirurgia de emergência.
Pancreatite Biliar: O cálculo migra e obstrui o ducto pancreático, causando inflamação do pâncreas, uma condição grave e potencialmente fatal.
Coledocolitíase: O cálculo migra para o ducto colédoco (o canal principal de drenagem da bile), causando icterícia (pele e olhos amarelados) e, em casos graves, colangite (infecção das vias biliares).
O Diagnóstico da Colelitíase pelo SUS
O diagnóstico é simples e altamente eficaz, sendo garantido pelo SUS em todas as suas etapas.
1. Avaliação Clínica na Atenção Primária
O primeiro contato é na Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico de família ou clínico geral fará a anamnese (entrevista) e o exame físico, levantando a suspeita de colelitíase com base nos sintomas de cólica biliar.
2. Ultrassonografia Abdominal
A ultrassonografia abdominal é o exame de escolha para o diagnóstico da colelitíase, com sensibilidade e especificidade superiores a 95% [1]. É um exame não invasivo, rápido e amplamente disponível na rede pública. Ele permite visualizar a presença, o número e o tamanho dos cálculos, além de avaliar a parede da vesícula e a presença de dilatação das vias biliares.
3. Exames Laboratoriais
Em casos de suspeita de complicações (como colecistite ou pancreatite), o SUS realiza exames de sangue para avaliar:
Bilirrubinas: Elevadas em casos de obstrução do ducto colédoco (coledocolitíase).
Amilase e Lipase: Elevadas em casos de pancreatite.
Leucograma: Elevado em casos de infecção (colecistite).
Indicação e Fluxo para a Cirurgia (Colecistectomia) no SUS
O tratamento definitivo para a colelitíase sintomática é a remoção cirúrgica da vesícula biliar, a Colecistectomia. O SUS segue protocolos clínicos rigorosos para garantir que a cirurgia seja realizada apenas quando estritamente necessária e segura.
Indicações de Cirurgia (Colecistectomia)
A cirurgia é indicada principalmente para pacientes com colelitíase sintomática (que apresentam cólicas biliares). No entanto, o Protocolo Clínico e de Regulação para Litíase Biliar [2] do SUS também recomenda a cirurgia para grupos específicos de pacientes assintomáticos devido ao alto risco de complicações ou câncer:
Vesícula em Porcelana: Condição rara onde a parede da vesícula está calcificada, com alto risco de câncer.
Cálculos Grandes ou Pequenos: Cálculos muito grandes (> 2,5 cm) ou muito pequenos (< 0,5 cm), que têm maior risco de complicações.
Imunossuprimidos: Pacientes transplantados ou diabéticos, que têm maior risco de colecistite grave.
Pacientes Jovens: Indivíduos muito jovens, devido à longa expectativa de vida e maior probabilidade de desenvolverem sintomas ou complicações.
Antecedentes Familiares: Pacientes com histórico familiar de neoplasia do trato digestivo.
O Fluxo de Encaminhamento no SUS
O encaminhamento para a cirurgia eletiva (não urgente) segue um fluxo regulatório:
Atenção Primária (UBS): O paciente sintomático é diagnosticado e orientado a abolir alimentos gordurosos para evitar crises. O médico da UBS preenche a solicitação de encaminhamento para o especialista.
Regulação: O caso é inserido no Sistema Nacional de Regulação (SISREG) para agendamento de consulta com o cirurgião geral ou gastroenterologista.
Atenção Secundária/Terciária: O especialista avalia o paciente, confirma a indicação cirúrgica e solicita os exames pré-operatórios necessários (laboratoriais, eletrocardiograma, etc.).
Agendamento da Cirurgia: A cirurgia é agendada, geralmente por videolaparoscopia, que é a técnica minimamente invasiva padrão-ouro.
A colecistectomia é um procedimento de alta demanda. Em 2024, a retirada da vesícula foi o terceiro procedimento mais realizado pelo SUS, o que reforça a importância da regulação para gerenciar a fila de espera e priorizar os casos mais urgentes.
A Colecistectomia: Técnica Cirúrgica
A cirurgia de retirada da vesícula biliar é chamada Colecistectomia.
Colecistectomia por Videolaparoscopia
Esta é a técnica preferencial e minimamente invasiva, realizada pelo SUS na grande maioria dos casos. O cirurgião faz pequenas incisões (geralmente quatro) no abdômen, por onde são inseridos uma microcâmera (laparoscópio) e instrumentos cirúrgicos finos.
Vantagens da Videolaparoscopia:
Menor dor pós-operatória.
Menor tempo de internação (muitas vezes, o paciente recebe alta no dia seguinte).
Recuperação mais rápida e retorno precoce às atividades.
Melhor resultado estético (cicatrizes menores).
Colecistectomia Convencional (Aberta)
A cirurgia aberta, com um corte maior no abdômen, é reservada para casos específicos, como:
Colecistite aguda muito grave.
Vesícula com inflamação crônica intensa (fibrose).
Complicações inesperadas durante a videolaparoscopia.
Pacientes com contraindicações à videolaparoscopia.
Cuidados e Recuperação Pós-Operatória pelo SUS
O acompanhamento pós-operatório é fundamental e também é garantido pelo SUS.
Cuidados Imediatos
Dor: O controle da dor é feito com medicamentos prescritos na alta.
Dieta: A dieta inicial é leve, progredindo gradualmente. A ausência da vesícula não impede a digestão, mas o paciente deve evitar excesso de gordura por um período.
Curativos: O paciente é orientado sobre a troca de curativos e a observação das incisões.
Acompanhamento a Longo Prazo
O paciente deve retornar à UBS para a retirada dos pontos e acompanhamento. O SUS oferece o suporte nutricional necessário para a adaptação à vida sem vesícula. A bile passa a ser liberada diretamente do fígado para o intestino, e a maioria dos pacientes não apresenta restrições alimentares significativas a longo prazo, mas o acompanhamento com nutricionista pode ser necessário para otimizar a digestão.
A colecistectomia é um procedimento seguro e eficaz que resolve a colelitíase. O SUS, ao oferecer o diagnóstico preciso e a cirurgia minimamente invasiva, garante que a população tenha acesso a um tratamento de alta complexidade que impacta diretamente na qualidade de vida, aliviando a dor e prevenindo complicações graves.
Prevenção da Colelitíase e o Papel da Atenção Primária
A prevenção da colelitíase está intrinsecamente ligada à modificação de fatores de risco controláveis, e a Atenção Primária à Saúde (APS) do SUS é o pilar para essa abordagem. O foco principal é a promoção de um estilo de vida saudável, que impacta diretamente na composição da bile e na função da vesícula biliar.
Estratégias de Prevenção no SUS
Orientação Nutricional: O nutricionista e o médico da UBS orientam sobre a importância de uma dieta equilibrada. O consumo excessivo de gorduras saturadas e colesterol é um fator de risco conhecido. A prevenção envolve aumentar a ingestão de fibras (frutas, vegetais, grãos integrais), que ajudam a reduzir a concentração de colesterol na bile. O SUS oferece grupos de educação alimentar e nutricional que abordam esses temas de forma contínua.
Controle de Peso: A obesidade é um dos principais fatores de risco. O SUS oferece programas de controle de peso, incluindo acompanhamento com educadores físicos e nutricionistas, para promover a perda de peso gradual e sustentável. É crucial evitar dietas "milagrosas" que levam à perda de peso muito rápida, pois isso, paradoxalmente, aumenta o risco de formação de cálculos.
Atividade Física: A prática regular de exercícios físicos, incentivada pelos programas de saúde da família, contribui para a manutenção de um peso saudável e melhora o metabolismo do colesterol.
Mitos e Verdades sobre a Vida Sem Vesícula
Após a colecistectomia, o paciente entra em uma fase de adaptação. É comum surgirem dúvidas e mitos sobre a vida sem a vesícula biliar. O acompanhamento pós-operatório pelo SUS é essencial para desmistificar e garantir a qualidade de vida.
Adaptação Digestiva
A vesícula biliar é um reservatório, não o produtor da bile. Após a cirurgia, o fígado continua a produzir bile, que passa a ser liberada diretamente no intestino delgado. A maioria dos pacientes se adapta bem e não apresenta restrições alimentares permanentes.
Mito: O paciente nunca mais poderá comer gordura.
Verdade: A ingestão de gordura deve ser controlada, especialmente nos primeiros meses. O nutricionista do SUS pode ajudar a reintroduzir gorduras saudáveis na dieta de forma gradual, monitorando a tolerância individual.
Síndrome Pós-Colecistectomia
Embora a cirurgia seja curativa para a colelitíase, uma pequena parcela de pacientes pode desenvolver a Síndrome Pós-Colecistectomia, que se manifesta com sintomas como dor abdominal, diarreia crônica ou azia. O SUS garante o acesso a exames complementares (como endoscopia ou colangiopancreatografia por ressonância magnética) e o acompanhamento com gastroenterologistas para investigar e tratar essas condições, que podem estar relacionadas a cálculos residuais ou a alterações na motilidade intestinal.
O sucesso do tratamento da colelitíase pelo SUS não se resume apenas à cirurgia, mas se estende ao suporte integral que o sistema oferece, desde a prevenção na atenção primária até o acompanhamento especializado de longo prazo. Esse cuidado contínuo é a chave para que o paciente retome sua vida normal com saúde e bem-estar.
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Referências
Colelitíase: Sintomas, Causas e Tratamentos. Hospital Israelita Albert Einstein.
Retirada da vesícula foi o 3° procedimento mais realizado pelo SUS em 2024. G1 Globo.
Diretrizes para o Tratamento da Colelitíase. Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).
Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS (SIGTAP). Ministério da Saúde.
Pré e pós-operatório de Colecistectomia. Manual de Orientação da FURG.
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